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O movimento sindical, a partir da proposta do Acordo Coletivo Especial, “conhecerá ainda mais refluxo em suas lutas, hoje já defensivas, como regra”, diz o sociólogo.
Confira a entrevista.
“As esquerdas têm perdido a capacidade de disputar a hegemonia e isso possui, a meu ver, uma grande importância”. A reflexão é do sociólogo Edilson Graciolli, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Ao avaliar a atuação da esquerda na atual conjuntura trabalhista, ele assegura que “se, por um lado, ainda há a centralidade do trabalho em duplo sentido (...), por outro lado, não se pode fazer vista grossa à crescente dificuldade de os trabalhadores terem o protagonismo na cena política e à igualmente relevante dificuldade de o sentimento de pertencimento à condição de assalariados se efetivar em termos de identidades políticas”. E rebate: “Isso está na raiz de uma postura mais negocial e menos confrontativa”.Na entrevista a seguir, Graciolli comenta o Acordo Coletivo Especial – ACE. Para ele, a proposta do sindicato dos metalúrgicos do ABC é equivocada porque “a prevalência do negociado sobre o legislado tende a rebaixar o que a legislação assegura”. E acentua: “Eu veria essa proposta de forma positiva se o negociado sempre significasse conquistas para além do que está previsto na legislação trabalhista, mas sabemos que o contrário é a tendência”. Na avaliação dele, o atual contexto é de “dificuldade de mobilização e aglutinação dos trabalhadores quanto a pautas que façam frente à desregulamentação dos direitos sociais, dentre eles os trabalhistas. Os sindicatos vivem, há tempos e em termos mundiais, uma crise de representatividade e capacidade de mobilização. Mas é preciso reconhecer que essa crise não é homogênea, nem ocorre sem contratendências. Aqui e acolá, os trabalhadores também dão sinais de que não aceitam permanecer num quadro de lutas apenas defensivas”.
Edilson Graciolli (foto abaixo) é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, e mestre em Sociologia e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. Cursou pós-doutorado em Sociologia na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. É professor da Universidade Federal de Uberlândia, membro dos conselhos editoriais das revistas Crítica Marxista e História & Luta de Classes.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual é o balanço que faz do movimento sindical, das centrais sindicais nos últimos anos? Que mudanças é possível apontar após o governo Lula e Dilma em relação à atuação anterior?
No que diz respeito a mudanças entre o governo Lula e o da presidente Dilma, entendo que o último revelou maior inflexibilidade na negociação, por exemplo, com o funcionalismo público, particularmente com os professores das universidades federais.
IHU On-Line – A que atribui a mudança no sindicalismo, que assume uma postura mais negocial e menos confrontativa?
Edilson José Graciolli – As esquerdas têm perdido a capacidade de disputar a hegemonia e isso possui, a meu ver, uma grande importância. Se, por um lado, ainda há a centralidade do trabalho em duplo sentido (como atividade produtora das condições materiais de existência, o trabalho é ineliminável das sociedades; além do mais, o capitalismo contemporâneo continua a fazer do trabalho abstrato sua lógica estruturante), por outro lado, não se pode fazer vista grossa à crescente dificuldade de os trabalhadores terem o protagonismo na cena política e à igualmente relevante dificuldade de o sentimento de pertencimento à condição de assalariados se efetivar em termos de identidades políticas. Isso está na raiz de uma postura mais negocial e menos confrontativa.
Entretanto, há outros elementos a serem considerados. A ampliação do assalariamento (mais atividades laborativas ocorrem no interior de múltiplas formas de compra e venda da força de trabalho, algumas delas disfarçadas por mecanismos que tentam burlar direitos trabalhistas, como a famigerada “pejotização”) não significa um correspondente aumento do universo de homens e mulheres que se põem a campo na luta política como assalariados. Os mecanismos e os instrumentos para se tentar diluir a solidariedade entre os que vivem da venda de sua força de trabalho têm sido eficazes, e isso não é pouco na luta política mais geral.
IHU On-Line – Como avalia a proposta do sindicato dos metalúrgicos do ABC, com o Acordo Coletivo Especial? O que muda para o movimento sindical a partir dessa proposta?
Edilson José Graciolli – Eu entendo que esse Acordo Coletivo Especial é uma reedição da proposta de que prevaleça o negociado sobre o legislado, ou seja, é um “prato requentado” de uma proposta que já experimentou outros balões de ensaio. O problema é que a prevalência do negociado sobre o legislado tende a rebaixar o que a legislação assegura. Eu veria essa proposta de forma positiva se o negociado sempre significasse conquistas para além do que está previsto na legislação trabalhista, mas sabemos que o contrário é a tendência. O movimento sindical, a partir dessa proposta, conhecerá ainda mais refluxo em suas lutas, hoje já defensivas, como regra.
IHU On-Line – Em que contexto esse acordo surge e por que ele é aceito por determinados sindicatos?
Edilson José Graciolli – O contexto é o da dificuldade de mobilização e aglutinação dos trabalhadores quanto a pautas que façam frente à desregulamentação dos direitos sociais, dentre eles os trabalhistas. Os sindicatos vivem, há tempos e em termos mundiais, uma crise de representatividade e capacidade de mobilização. Mas é preciso reconhecer que essa crise não é homogênea, nem ocorre sem contratendências. Aqui e acolá, os trabalhadores também dão sinais de que não aceitam permanecer num quadro de lutas apenas defensivas.
IHU On-Line – Qual tem sido a repercussão do Acordo Coletivo Especial entre o movimento sindical? Há mais apoio ou divergência?
Edilson José Graciolli – Apenas uma pesquisa permitiria dizer com segurança o que prevalece no movimento sindical quanto a isso. Mas suponho que as críticas devem ser mais expressivas do que o apoio.
IHU On-Line – Como avalia a notícia de que os governos do Brasil e da Alemanha vão firmar um acordo para desenvolver em conjunto um modelo de relações do trabalho?
Edilson José Graciolli – Isso é uma evidência de que também a atual divisão internacional do trabalho se faz repercutir nas formas como os governos buscam regular as relações trabalhistas. Mas vejo nesse horizonte alguns obstáculos quase intransponíveis. A estrutura sindical brasileira é uma afronta à liberdade e à autonomia sindicais, quadro bem diferente da realidade alemã. Além do mais, se pensarmos na Convenção da Organização Internacional do Trabalho – OIT, que regula as relações trabalhistas na administração pública, o fosso ainda é maior, pois o Brasil é signatário dessa Convenção, mas não a implementa na prática. Então, como se falar em um modelo comum entre arranjos jurídicos sindicais tão díspares?
IHU On-Line – Como interpreta a declaração do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, de que o “Brasil já atingiu a maturidade institucional e econômica necessária para modernizar suas relações trabalhistas”? É isso mesmo?
Edilson José Graciolli – Isso é, de um lado, a revelação de que muitos ainda pensam com critérios evolucionistas e segundo os quais o centro do capitalismo é uma meta a ser buscada. De outra parte, revela que Hegel tinha razão: o melhor dos mundos para o senhor de escravos é que estes pensem com a cabeça daquele.
IHU On-Line – Quais são as novidades da luta sindical brasileira?
Edilson José Graciolli – Não vejo novidades de envergadura expressiva. Talvez a novidade seja, na prática, o fim da unicidade sindical entre os docentes das universidades federais, pois entre eles há pelo menos três entidades sindicais (ANDES, Proifes e Sinasefe), além de sindicatos locais.
IHU On-Line – Quais os desafios postos ao movimento sindical brasileiro na atual conjuntura?
Edilson José Graciolli – O mais importante me parece ser o da necessidade de se recuperar a capacidade e a legitimidade da representação sindical. Isso supõe, a meu ver, o fim da estrutura sindical vigente desde a promulgação da CLT, que se assenta na outorga da representação sindical, nas contribuições compulsórias e na unicidade sindical. Isso me parece condição necessária, ainda que insuficiente. Há outro desafio muito importante, que é o da organização nos locais de trabalho, horizonte há muito perdido pelo movimento sindical.
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/516359-desregulamentacao-dos-direitos-trabalhistas-entrevista-especial-com-edilson-graciolli
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