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domingo, 23 de junho de 2013

Movimento 'antipolítica' antecipa o roteiro do golpe nas redes sociais

Postagens pedem que o presidente do STF, Joaquim Barbosa, assuma a Presidência da República
 
Sem meias palavras, movimento que dominou manifestações de rua nos últimos dias começa a pedir o afastamento da presidenta Dilma Rousseff e a clamar por Joaquim Barbosa, o 'salvador da pátria' 
 
Convocação do exército para intervir na política remonta aos tempos do golpe de 1964
Convocação de greve geral, organizada por defensor do porte de armas, clama por pautas genéricas
Para compartilhar nas redes
Referência à campanha americana na Segunda Guerra Mundial, folheto escancara ideal autoritário
Bandeiras arrancadas, rasgadas e queimadas
São Paulo – Com a apropriação da onda de manifestações em várias cidades brasileiras por pautas conservadoras, as redes sociais ligadas a esses grupos já começam a traçar uma espécie de "roteiro do golpe". De um lado, defendem o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, de "todos os políticos" e de "todos os partidos". De outro, clamam para que o presidente do STF, Joaquim Barbosa, assuma o comando do país para que as forças armadas ajam “em defesa da população que se manifesta nas ruas”.
Embora sejam difusamente compartilhadas, as campanhas atingem um número relevante de pessoas. Uma delas, com a foto de Barbosa pedindo que assuma a presidência do país, já passa de 270 mil compartilhamentos.
Outra, no site Avaaz.org, pede o impeachment de Dilma e tem 315 mil assinaturas. Junto a elas, comentários pedindo o fim dos partidos, ação das forças armadas, separação de São Paulo do restante do país etc.
Em outra ação, os grupos de direita criaram um evento no Facebook convocando greve geral para 1º de julho. Na pauta de reivindicações estão o “fim da roubalheira", a "auditoria no caixa do governo" e a "punição para os corruptos”, entre outros nove temas. O ato contava 390 mil confirmações até as 13h de hoje.
Um vídeo da organização Anonymous, publicado na terça (18), chegou à marca de 1,4 milhão de compartilhamentos. O filme divulga “as cinco causas diretas, sem cunho religioso ou ideológico, sem bandeiras partidárias ou subjetividades”. As ideias propostas como de “cunho moral” e “unanimemente aceitas” são: Não à PEC 37; saída de Renan Calheiros da presidência do Congresso Nacional — ele é presidente do Senado — investigação e punição das irregularidades na organização da Copa do Mundo; lei que torne a corrupção crime hediondo; e fim do foro privilegiado.
Na noite de ontem (20), o site do jornal Brasil de Fato denunciava a realização de uma pesquisa pelo Instituto Datafolha, que perguntava às pessoas qual afirmação ela se identificava mais: "a democracia é sempre melhor que qualquer forma de governo"; "em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático"; ou "tanto faz se o governo é uma democracia ou uma ditadura".
Todas essas iniciativas incendeiam ainda mais o cenário de temeridade formado pela tomada do movimento que ganhou as ruas nos últimos dias pelas pautas identificadas com a direita política. O Movimento Passe Livre declarou na manhã de hoje que não convocará mais protestos, pois alcançou a vitória almejada, e criticou a violência contra organizações políticas ocorridas na manifestação de ontem (20) na avenida Paulista.
 
No RBA

Projeto “cura gay” chuta a democracia, diz juiz




Esta semana a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que trata da polêmica “cura gay”.

Esvaziada após a assunção à sua presidência de um polêmico líder religioso e deputado federal, a referida comissão passou a trilhar um caminho revés ao que, historicamente, os movimentos de defesa dos direitos humanos fazem que é a defesa da diversidade e a proteção das minorias e dos oprimidos contra o unilateralismo totalitarista das maiorias e dos poderosos.

À primeira vista – diriam alguns – tal proposta não tem nada demais. Conversando com um amigo, o mesmo argumentou que apenas permite que profissionais da área de psicologia possam tratar pessoas que desejam mudar o que ele chamou de “opção sexual”. Cabe alguns apontamentos sobre isso. Há uma violência simbólica séria. Uma violência que se expressa nas palavras e que visa “naturalizar” uma imposição e uma diminuição da dignidade de uma minoria.

Acredito que a primeira violência é chamar a homossexualidade de “opção”. Obviamente, a condição de “optante” abre espaços para posturas de baixo moralismo, que remetem a homossexualidade a uma categoria de degradação moral, “safadeza” e promiscuidade.

Dentro dessa seara de discussão existem, ainda, os pseudoliberais, que até reconhecem que se trata de algo que não se controla e, por isso, não condena a existência do desejo, mas sim sua concretização. Na prática, quer-se impor a abstinência sexual. Isto é, o indivíduo tem o desejo mas deve passar a sua vida infeliz, sem poder emancipar sua sexualidade. O efeito, portanto, termina sendo o mesmo dos que não a toleram por razões moralistas.

Desde de a década de 1970, diversos países, incluindo os EUA, rejeitam a homossexualidade como patologia. No Brasil, desde 1984 a Associação Brasileira de Psiquiatria entende que tratar a homossexualidade como doença é discriminação e preconceito. O Conselho Federal de Psicologia deixou de considerar a homossexualidade como um desvio sexual em 1985. E em 1999, estabeleceu regras e declarou que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”.

O conteúdo de violência da proposta aprovada na referida comissão da Câmara dos Deputados consiste em “normalizar” posturas discriminatórias contra essa minoria, ferindo-lhe a dignidade. E por que fere a dignidade? Porque diminui o outro, não o considera igual. Só há “cura” onde está o “mal”. E, claro, tal discurso discriminatório é sempre acompanhado de uma bela cobertura de chocolate: é para o “bem” “deles”. O desrespeito à diferença coisifica, renega o diferente enquanto sujeito dotado de autonomia. E tem mais: da “permissão” para a “imposição” é só um passo. O desejo de “corrigir” pressupõe o reconhecimento de uma desigualdade – no qual o diferente é sempre o inferior. “Eu devo corrigir o outro, curá-lo, porque eu sou o portador da verdade e é para o bem dele”. Todo discurso totalitarista precisa desse engendramento para funcionar.

Propostas como essa são fascistas, autoritárias. Esse discurso de diminuição do outro sectariza e abre espaço para o tratamento indigno. Há não muito tempo isso foi posto em prática na Europa e resultou no Holocausto. E cabe acrescentar que ele não se deu apenas contra os judeus. Uma boa parcela dos segregados e assassinados era de minorias, de “diferentes”, vistas pelo totalitarismo como “anormais”. Os defensores de outra ideologia (comunistas e sociais democratas – contrários ao nazismo) ou que constituíam o diferente em razão de pertencerem a outro povo (ciganos), credo (judeus), desejo (homossexuais) ou etnia (em especial, negros), foram tratados como sub-humanos e mortos. Pergunto-me agora: depois dos gays, quem serão os próximos diferentes a serem “curados”? Na fila: os comunistas e os ateus.

Essa proposta é fascista. Ela chuta a Democracia, senhores, porque Democracia não é o mero governo da maioria. Isso é totalitarismo, como na Alemanha ariana. Isso é apenas o abismo, o buraco-negro da intolerância. Democracia é algo muito além. É o Regime de Governo em que a maioria governa, mas sempre considerando, respeitando e fomentando os direitos as minorias.

É totalitarista o discurso que quer se apropriar da sexualidade, impondo seu padrão de “normalidade”. É totalitarista o discurso que quer se apropriar da “família”, bradar o discurso de sua defesa, como se a “família” fosse uma instituição apropriável por um determinado grupo. A família não se origina de qualquer religião, muito menos do cristianismo. Ela é algo natural porque o ser humano é um ser-no-mundo social. É natural dele a formação de um grupo, de um clã. Até o “amor” é cooptado pelo totalitarismo. Mas o amor, como o desejo e o amar alguém, não pertence a nenhum credo e muito menos é mais ou menos valioso porque é direcionado para um ente do mesmo ou do sexo oposto.
Mas o ódio e a intolerância, ao que parece, estão presentes em muitos discursos por aí. O discurso de intolerância contra a diversidade é preconceituoso exatamente porque parte de um conceito prévio errado, de usurpação e cooptação para si de uma instituição (família) que havia antes de qualquer das religiões hoje em voga, ou de se arvorar no direito de querer impor ao outro a sua “normalidade”. Isso é que não é normal.

A questão que devemos pôr em pauta agora é: há cura para o preconceito? Uma coisa é certa. Numa democracia não se pode tolerar a intolerância quando ela passa de mero exercício da liberdade de expressão para a (so)negação de direitos e a violação da dignidade humana.

Em tempos de protestar, eis uma boa causa para se lutar.

Proponho, ao invés de se apregoar a intolerância, que se apregoe o amor. Recordo agora o trecho de uma poesia que escrevi sobre o amor:

    “Temos todos o direito de amar. Um amor incondicional, intemporal, onipresente. Um amor que não se quede a convenções. Um amor que só tenha um limite: amar o Outro infinitamente.

    Que o homem ame a mulher e a mulher o homem. Que o homem ame outro homem e a mulher outra mulher. Que ame a si, a ti, a nós. Que o novo ame o velho e o velho o novo. Ame o humano. E o humano o que não seja humano. Que ame o mundo.

    Que o amor tenha qualquer cor: preta, branca ou arco-íris. E a língua que lhe seja capaz de se fazer entender e exprimir. Que o amor transporte barreiras, cruze fronteiras, desconheça distâncias. Atravesse mares, inunde vales. Que clareie as mais escuras cavernas do mundo ou da alma humana.

    Amemos! E que sejamos felizes na arte de expressar o amor, da melhor maneira: a que faça alguém feliz.”

(*) O autor é juiz da 2ª Vara Criminal da Zona Norte de Natal 

sábado, 22 de junho de 2013

As Cidades Rebeldes de David Harvey



Um grande teórico das metrópoles contemporâneas contesta hipóteses conformistas e vê nestes centros, colonizados pelo capital, laboratórios de outra sociedade

Entrevista a John Brissenden e Ed Lewis, do New Left Project | Tradução: Daniela Frabasile e Laís Bellini

Acaba de sair (por enquanto, em inglês), um livro indispensável para quem quer debater crise do capitalismo, degradação social e ambiental das cidades e busca de alternativas. Numa obra curta (206 páginas), intitulada “Cidades Rebeldes”, o geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey sustenta pelo menos três ideias polêmicas e indispensáveis, num tempo de crise financeira, ataque aos direitos sociais, risco de desastre ambiental e… rebeliões contra o sistema. Elas estão expostas em detalhes em entrevista que Harvey concedeu a John Brissenden e Ed Lewis, do excelente site britânico New Left Project.
A primeira provocação do geógrafo – que é também um dos grandes estudiosos contemporâneos de “O Capital”, de Karl Marx (veja a área especialmente dedicada ao tema, em seu site) – diz respeito ao papel das grandes metrópoles. Harvey discorda de dois tipos de pessimismo. Estes grandes centros para onde fluem as multidões de todo o mundo no século 21, diz ele, são bem mais que templos da desigualdade, da vida automatizada e cinzenta, da devastação da natureza.
É a elas que afluem – e lá que se articulam — as multidões às quais o capital já não oferece alternativas. Esta gente estabelece novas formas de sociabilidade, identidade e valores. É nas metrópoles que aparecem a coesão reivindicante das periferias; novos movimentos como Occupy; as fábricas recuperadas por trabalhadores em países como a Argentina; as famílias que fogem ao padrão nuclear-heterossexual-monogâmico. Nestas cidades, portanto, concentram-se tanto as energias do capital quanto as melhores possibilidades de superá-lo. Elas não são túmulos, mas arenas. Aí se dá o choque principal entre dois projetos para a humanidade.
A segunda hipótese de Harvey diz respeito à própria (re)construção de um projeto pós-capitalista. O autor de Cidades Rebeldes está empenhado em identificar e compreender formas de organização social distintas das previstas por um marxismo mais tradicional. Ele reconhece: ao menos no Ocidente, enxergar na a classe operária fabril o grande sujeito da transformação social equivale quase a um delírio. É preciso buscar sentidos rebeldes nas lutas por direitos sociais empreendidas por um leque muito mais amplo de grupos e movimentos. Não cabe nostalgia em relação às batalhas dos séculos passados: é hora de tecer redes entres os que buscam de muitas maneiras, nas cidades, construir formas de vida além dos limites do capital.
Mas esta abertura ao novo não significa, diz Harvey (e aqui está sua terceira provocação fundamental), aderir a modismos. O autor saúda o surgimento de uma cultura da horizontalidade e da desierarquização, nas lutas sociais. Mas sugere: para enfrentar um sistema altamente articulado, será preciso construir, também, visões de mundo e projetos de transformação que não podem ser formulados no chão de uma assembleia local de indignados. Harvey teme que o horizontalismo – grosso modo, a noção de que tudo deve vir das bases e ser debatido em assembleias – acabe se transformando num fetiche. Seria, ele adverte, refazer pelo avesso a obsessão dos antigos Partidos Comunistas pela autoridade e centralização. A entrevista completa vem a seguir (A.M.).


“Rebel Cities: from the right to the city to urban revolution”, Verso, Londres, 206 páginas, U$ 13,95

John: Você diria que há um argumento central em “As Cidades Rebeldes: Do direito à cidade à Revolução Urbana”, ou o livro reúne diversos temas?
David Harvey: Um pouco dos dois. Se há um argumento central, ele está nos capítulos 2 (“As raízes urbanas das crises capitalistas”) e 5 (“Reivindicando a cidade para a luta anticapitalista”). O capítulo 2 é essencialmente sobre as relações entre capital e urbanização; o 5, sobre a oposição entre o capital e a urbanização. O conflito de classes está basicamente nos capítulos 2 e 5.
John: Você fala sobre as rendas do monopólio e as contradições intrínsecas a esse processo. Poderia explicar essas contradições e o significado delas para sua análise?
David Harvey: Argumenta-se que capitalismo tem a ver com competição, algo muito repetido e valorizado. Mas basta falar com um capitalista para descobrir que ele prefere o monopólio, se houver essa possibilidade. O que existe na verdade, por parte do capital, é uma incessante tentativa de evitar situações competitivas por meio de algum truque monopolista.
Por exemplo, o fato de dar nome e marcas produtos é uma tentativa de colocar neles um selo do monopólio, É por isso temos o swoosh do Nike [a seta estilizada que caracteriza a marca], ou ícones parecidos, que tornam certos produtos diferentes de qualquer outra coisa. Esta tendência ao monopólio é permanente. Ao escrever A Arte da Renda, eu quis chamar atenção sobre como os capitalistas gostam de chamar algo de original, autêntico, único. Eles adoram o “marketing da arte”. Há, portanto, um fluxo enorme de capital em direção a qualquer coisa que se possa facilmente monopolizar.
John: Mas uma vez que esse processo começa…
David Harvey: Bem, num certo aquilo que não era uma mercadoria de marca transforma-se em algo menos exclusivo, uma commodity. Esta tensão sempre existe. Veja, por exemplo, a modernização dos portos urbanos. O primeiro processo foi muito bom, todos diziam “que interessante”. Agora, quando você a muitas cidades do mundo e lhe perguntam: “viu o porto?”, você responde: “Vi um, vi todos”. E Barcelona não parece mais tão única quanto antes, porque seu porto [modernizado] se parece com qualquer outro. Rotterdam, Cardiff e, claro, Londres, têm um. Não é mais uma coisa única, se tornou apenas um tipo de taxa urbana comum.
John: Você argumenta um espaço se abre, nessa tensão…
David Harvey: Sim, acho, por exemplo, que a qualidade de vida em uma cidade frequentemente é algo definido por seus habitantes, sua forma de vida, seu modo de ser. Para que isso se torne único, o capital depende da inventividade de uma população para fazer algo, para fazer algo diferente. O capital tende a ser homogenizante. As pessoas frequentemente fazem o diferencial, produzem atrações únicas, existe um tipo de relação aí. Isso significa que os movimentos populares podem ter espaço para florescer, para tentar definir alguma coisa que é radicalmente diferente.
John: Você pode apontar exemplos de onde isso está acontecendo?
David Harvey: Sim. Em Hamburgo, existe uma área, o bairro St. Pauli, que era cheio de squats [ocupações de prédios abandonados, em geral feitas por jovens e imigrantes]. Eles criaram um ambiente único, muito diverso. Múltiplas etnias, classes, uma vida urbana muito intensa. O setor imobiliário, muito presente em Hamburgo, havia transformado a cidade em algo muito homogêneo. De repente, perceberam que existe esse bairro incrível, e agora estão tentando apropriar-se dele, comprando casas e alugando-as por um preço diferenciado, porque “não é interessante viver nesse bairro vibrante?”. Esse tipo de coisa você vê nas cidades a toda hora: as pessoas criam um bairro único, ele se torna burguês e entediante.
John: Sabemos que, no interior do capitalismo urbanista, há forças de compensação muito poderosas. Como podemos reverter sua lógica?
David Harvey: Um exemplo: o movimento Occupy desencadeou, em Nova York, uma resposta policial muito feroz e realmente exagerada. Basta você tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor – e são bem agressivos.
Tentei entender por que. Quando os Giants venceram o Superbowl [campeonato nacional de futebol americano], as pessoas tomaram as ruas, interromperam a atividade normal de maneira ainda mais clara e a polícia não fez nada. “Ah, eles estão apenas comemorando”. Mas o Occupy cria, por seu significado político, uma resposta violenta. E se você pergunta por quê, sinto que Wall Street enerva-se muito com a possibilidade de esse movimento virar moda. Se isso ocorrer, haverá uma clara demanda para responsabilizar pessoas por muito do que aconteceu à economia. E o pessoal de Wall Street sabe o que fez, sabe que tem responsabilidade e que pode acabar preso. Penso que dizem ao prefeito e a todas as demais autoridades: “acabe com esse movimento antes que vá longe demais”. Isole-o, faça com que pareça muito violento. Então você acaba com esse tipo de resposta política.


John: Que outras qualidades do movimento Occupy lhe parecem particularmente significativas?
David Harvey: Eu estive fora ano passado inteiro, realmente não acompanhei o Occupy em seu período mais ativo nos Estados Unidos. Mas algo que fizeram foi chamar muita atenção para a questão da desigualdade social, para os bônus enormes pagos aos altos executivos. Estes conceitos estão se espalhando. Antes do Occupy,nada disso era discutido. Agora o Partido Democrata nos Estados Unidos, e até Obama, estão dispostos a tratar a desigualdade social como um problema. Os acionistas das grandes empresas estão começando a votar contra os grandes pacotes de bônus. Acho que tudo isso foi consequência da agenda criada pelo movimento. Mas, como sempre acontece, os poderes políticos cooptam parte do discurso contra o sistema e tentam diluí-lo. Vivemos agora uma fase de certa cooptação, em que os acionistas estão assumindo parte da retórica e Obama, outra parte
Ed: Sobre isso, estamos interessados em suas discussões sobre estratégia. Como ponto de partida, é claro que a concepção tradicional que a esquerda tinha, da classe operária industrial como sujeito revolucionário e agente de mudança, não se encaixa mais no Ocidente. Você pode contar como reconcebeu o sujeito revolucionário, quem pode constituí-lo hoje e como está relacionado às cidades e à identidade urbana?
David Harvey: Para tratar deste tema, faço uma pergunta: quem está produzindo e reproduzindo a vida urbana? Se você olhar para o tipo de produção que prevalece hoje, definirá o proletariado de maneira totalmente distinta da que se contentava em associá-lo ao trabalhador fabril.
Este é o passo necessário. A partir daí, é possível pensar em quais formas de organização são possíveis hoje, entre as novas populações urbanas. Elas são mais difíceis de organizar, precisamente porque não estão em fábricas. Por exemplo, a imensa quantidade de trabalhadores que atuam no transporte de produtos e pessoas, de caminhoneiros a taxistas, Como organizá-los?

Há algumas experiências interessantes a respeito, em Nova York e Los Angeles. Politicamente, não é possível falar num sindicato nos termos tradicionais, é preciso criar organizações diferentes.
Ou tomemos o caso dos empregados domésticos. É extremamente difícil organizá-los, particularmente quando são, como em muitos países do Norte, ilegais. Porém, são uma força de trabalho bastante significativa, em muitas cidades. Parte do que estou dizendo é que todas estas formas de trabalho desenvolvem-se nas cidades e são vitais para a reprodução da vida urbana. Por isso, deveríamos nos preocupar em organizar politicamente estes trabalhadores, para influir na qualidade e natureza da vida nas cidades. Em alguns casos, a organização é muito difícil; em outros, pode ser muito vigorosa, mas assume frequentemente formas muito distintas das tradicionais.
Ed: Você acha que a esquerda está mergulhada neste tema, em compreender os desafios e oportunidades com que nos deparamos?
David Harvey: Penso que, historicamente, a esquerda sempre estabeleceu algum tipo de separação entre o que você poderia chamar de organizações de trabalhadores, ou baseadas em classes, e movimentos sociais. Uma de minhas batalhas nos últimos 30 ou 40 anos tem sido dizer que é preciso enxergar estes movimentos como movimentos de classe. Penso que houve uma relutância a aceitar isso, em muitos setores da esquerda.
Veja que esta relutância diminuiu, inclusive em razão da rapidez com que o trabalho fabril desapareceu. Quando cheguei em Baltimore, em 1969, havia algo como 35 mil operários na fábrica de aço. Quinze anos depois, eram 10 mil e na virada do século, apenas 2 mil. Se você quisesse organizar algo politicamente em 1970, você abria um diálogo com o sindicato dos metalúrgicos, porque eles tinham musculatura. Hoje, são irrelevantes. Mas se o sindicato já não conta, como organizar os trabalhadores? Diante desta questão, penso que a esquerda passou a compreender e valorizar melhor os movimentos sociais.
Ed: Em relação às dificuldades na organização dos grupos de que estamos falando, você investigou uma grande variedade de movimentos, em momentos diferentes. Existem lições particulares que devam ser generalizadas?
David Harvey: A maioria dos grupos desse tipo aparece como de organizações por direitos sociais. Sob esse guarda-chuva, eles podem criar formas organizativas menos restritas que as dos sindicatos convencionais. Agora, uma das coisas que vi em Baltimore foi que um movimento de sindicatos convencionais pode ser hostil a essas novas organizações. O movimento sindical convencional dividia-se: algumas vezes eles apoiavam; mas era mais comum considerarem essas formas de organização como uma ameaça a si próprios.
Penso que hoje, o movimento sindical convencional está preparado para enxergar essas organizações como cruciais para apoiar suas lutas. Começa a surgir um tipo de coalizão. Na marcha do Primeiro de Maio realizada em Nova York, há pouco, pessoas tradicionalmente ligadas ao movimento sindical juntaram-se aos movimentos sociais.
Sou muito a favor de uma forma diferente de organização sindical, de preferência local, e não por setor. Acredito que os sindicatos convencionais devem prestar mais atenção aos conselhos de comércio locais e aos conselhos municipais. Os sindicatos tendem se preocupar apenas com o bem estar de seus membros, e uma organização geográfica precisa pensar no proletariado em geral, na cidade. Desse ponto de vista, uma forma de organização diferente pode abranger uma cidade inteira, e unir pessoas  envolvidas em sindicatos diferentes, com todas as suas diferenças, em um tipo de sindicato da cidade, ou uma organização política da cidade.
Ed: No capítulo 5 do novo livro, você relaciona algumas de suas hipóteses sobre organização urbana às dificuldades enfrentadas pelas formas tradicionais de organização da esquerda.  Não apenas no que diz respeito a diferente composição do proletariado, mas também nas relações com organizações autônomas, como cooperativas; ou na dificuldade para atuar na esfera estatal. Você parece sugerir que as cidades são locais de organização especialmente poderosos, e se fosse possível organizar uma cidade inteira, então possivelmente estaríamos muito empoderados. Por que você acha que as cidades são tão importantes? As cidades radicalmente isoladas não sofreriam da mesma vulnerabilidade das cooperativas?
David Harvey: Gosto de pensar nas cidades porque são uma escala maior que uma simples fábrica. Se você observar as fábricas recuperadas na Argentina, tomadas pelos trabalhadores em 2001-2002, verá que uma das dificuldades que surgiriam desse movimento e das associações de trabalhadores envolvidas é que, em certo ponto, como estão imersas num sistema capitalista, vêem-se envolvidas na competição e, em consequência, em práticas de auto-exploração.
Marx tem uma série de passagens interessantes, onde diz que o primeiro passo em direção a uma transformação revolucionária é a tomada dos meios de produção pelos trabalhadores; mas se ficarmos apenas nesse nível, não será suficiente. Se você começar a pensar em organizar uma cidade inteira (e isso está começando a acontecer um pouco na Argentina), as fábricas precisarão de matérias primas — se você está produzindo camisas, precisa de tecido. Mas de onde vem o pano? Bem, você começa a criar uma rede; monta uma rede de cooperativas produzindo coisas diferentes, interligadas.
Você pode imaginar que podem surgir, em uma área metropolitana, economias interligadas dessa forma, o que nos levaria além das possibilidades de tomar apenas uma fábrica específica. Outro fato interessante sobre as fábricas na Argentina é que quando foram tomadas, não permaneceram simplesmente como fábricas. Tornaram-se centros comunitários, integraram realmente os bairros próximos, tinham programas educacionais e culturais. Quando os donos voltaram, uns cinco anos depois, e disseram “queremos nossa fábrica de volta ou levaremos as máquinas”, a população saiu de suas casas para impedi-los. Assim, é muito mais fácil de defender as fábricas tomadas.
Claro que se você tentar criar uma cidade totalmente comunista no meio do capitalismo, provavelmente irá sofrer uma repressão real e violenta. Estará numa situação como a da Síria, em uma cidade como Homs onde há um movimento de oposição muito forte. De certa forma, é uma cidade rebelde, cercada pelo exército e esmagada, com pessoas mortas e outras submetidas.
Penso que há perigo real em ir muito longe e muito rápido. Quão longe uma cidade pode ir, em relação a sua organização? Há exemplos disso: Porto Alegre construiu sua forma orçamento participativo, e agora há orçamento participativo em muitas cidades do mundo. Não é uma medida revolucionária, apenas uma medida transformadora que aprofunda a democracia urbana.
Esse movimento tornou-se significativo. Algumas inovações ocorrem no campo ambiental. Outra cidade brasileira muito interessante é Curitiba, que trabalhou questões ambientais e tornou-se conhecida por organizar seu sistema de transporte coletivo de uma forma ecológica e  sofisticada. As inovações que vieram de lá também estão sendo implantadas em outras cidades. Você pode imaginar uma situação como essa nos termos do que chamo de “teoria dos cupins”[Harvey refere-se aos casos em que é possível corroer por dentro uma estrutura capitalista, sem alarde, até que ela entre em colapso], para transformação social. Esta cidade agora tem uma estrutura institucional diferente, e você começa a ver tais mudanças como algo que se espalha pela rede urbana.
Ed: No entanto, você também é crítico da teoria dos cupins…
David Harvey: É preciso sempre ter cuidado. Quando sou crítico, não estou desprezando. Sustento que algumas estratégias são boas, que as pessoas poderiam adotá-las, mas por outro lado temos que considerar as limitações da realidade. Em que momento você passa de uma “estratégia dos cupins”para outra? Uma das coisas em que realmente me empenhei, no capítulo 5, foi tentar mostrar que há uma variedade de estratégias, para uma variedade de situações e propósitos. Não devemos, portanto, nos restringir dizendo: “esta é a única estratégia que vai funcionar”. Podemos adotar diversas, todas as que forem possíveis. Em alguns casos, não há outra opção além de se envolver em estratégia de cupins; e é possível, ainda assim, fazer um bom trabalho.
John: Você fala no livro sobre a cidade chinesa de Chongqing, onde Bo Xilai, líder do Partido Comunista, liderou processos muito interessantes, até ser afastado. Seria um exemplo dos riscos de ir “longe demais, rápido demais”?
David Harvey: Bem, eu não sou especialista em China, e me pergunto se ele era tão brutal e tão corrupto está sendo pintado; ou se o retratam dessa maneira porque não gostam do modelo que estava desenvolvendo. Era maoísta na retórica; estava muito preocupado com a redistribuição da riqueza. Estava muito claro que sua tentativa de se tornar poderoso no Comitê Central baseava-se no desenvolvimento deste modelo urbano particular,  radicalmente distinto do que se vê em Xangai, Shenzhen e lugares assim. Nesse aspecto, eu o achava muito interessante.
Agora, tanto quanto sei, o Comitê Central tem adotado, como políticas nacionais, algumas das práticas que Bo lançou em Chongqing. Isso é típico: como sabemos, há na China uma necessidade de incentivar o mercado interno  e alguma preocupação sobre redistribuição da riqueza. Eles observaram um processo local bem-sucedido e talvez tenham decidido enfrentar estes problemas por meio de aumento salários ou construção de habitações, como Bo estava fazendo. Pode ser o modelo chinês de urbanização, que tem sido, na minha opinião, bastante desastroso — ambiental e mesmo economicamente — mude nos próximos anos, nas mesmas linhas que o dirigente afastado estabeleceu. Mas ressalto que são apenas especulações.
Ed: Quero voltar para o que você afirmou sobre abraçar uma pluralidade de estratégias, e uma diversidade de formas organizacionais. Você tem participado de um debate permanente, e às vezes ácido, opondo “horizontalistas” a “centralistas”, ou “verticalistas”. Pode falar mais sobre isso, e como se relaciona a sua análise sobre capitalismo e cidade?
David Harvey: Acho que há hoje um grande apego pela horizontalidade. Tento dizer a meus alunos que gosto de passar grande parte da minha vida no horizontal, mas também gosto de ficar de pé de vez em quando e andar por aí! Porque acho que esta oposição não é útil. Sou a favor de ser tão horizontal quanto você puder. Mas há o que chamo no livro de uma espécie de fetichismo da forma de organização — o que foi terrível nas concepções de centralismo democrático dos partidos leninistas e comunistas.
Repito: a questão é para mim, identificar que tipo de organização será capaz de enfrentar e resolver cada tipo de problema. Acho que a horizontalidade pode ajudar a resolver alguns problemas, em certas escalas, mas não funciona em outras situações. Vivemos num mundo onde há um sistemas muito estruturados, a de maneira que você também precisa de estruturas de comando e controle para lidar com eles. Por exemplo, uma estação de energia nuclear é um sistema fortemente estruturado. Quando algo dá errado, você precisa reagir imediatamente, caso contrário tudo acontece muito rápido e explode. A universidade não é um sistema fortemente hierarquizado. Se algo der errado nela; se alguém não aparecer para uma palestra, por exemplo, isso importa pouco: a instituição sobrevive perfeitamente bem. Mas em sistemas fortemente hierarquizados, você precisa tomar decisões com rapidez.
Por isso, pergunto aos horizontalistas radicais: você quer organizar o controle de tráfego aéreo por meio de princípios horizontalistsa? Quer ter assembleias o tempo todo, na torre de controle de tráfego aéreo? Será que funciona? Como você se sentiria se estivesse no meio de um voo cruzando o Atlântico, e de repente dissessem: “bem, os controladores de tráfego aéreo estão em assembleia, e eles vão nos informar amanhã o que decidiram”? Há muitas atividades que precisam, como essa, de formas bem diferentes de organização. Acho ótimos que as pessoas estejam debatendo horizontalidade, mas é ruim que digam algo como: “ou é horizontal, ou não é nada”.
Ed: Estas ideias vêm de um semi-anarquismo, de uma profunda suspeita diante de qualquer forma de autoridade. Você está dizendo,  basicamente, que ser um radical, um anti-capitalista, ainda é necessário reconhecer que às vezes a autoridade tem o seu papel?
David Harvey: Sim, claro: acho que a autoridade tem seu papel. O problema importantíssimo que se coloca é: como você controla uma autoridade? Quais são os mecanismos de revisão de mandatos e de controle? Porque uma estrutura hierárquica pode, de fato, tornar-se autoritária. Mas há uma grande diferença entre autoritarismo e autoridade. Eu acho que em certas situações, você precisa de alguém para exercer autoridade.
O exemplo ilustre de que muitas pessoas lembrariam são os zapatistas. Mas eles, militarmente, não são horizontais. Sobrevivem até hoje precisamente porque, se você tentar mexer com os militares, eles têm um comando muito bom e estruturas de controle com os quais podem resistir. Se você não tiver isso, será muito vulnerável. Uma das críticas que sempre foram feitas à Comuna de Paris é que, devido a uma espécie de anarquismo filosófico, não havia nenhuma autoridade central para defender a cidade inteira.
As pessoas defendiam seu distrito, mas não toda a cidade. Por isso as forças da reação puderam atacar: não havia nenhuma estrutura de comando e controle para resistir militarmente à invasão.
John: Você fala, no novo livro, sobre Murray Bookchin, e sua abordagem sobre uma saída para este problema de escala. 
David Harvey: Sou um geógrafo, e o pensamento anticapitalista na Geografia sempre foi predominantemente anarquista. Os anarquistas têm uma longa tradição de estar muito mais interessados em questões ambientais e urbanas que os marxistas. Eles exerceram, ao longo do tempo, muita influência sobre as práticas de planejamento. Figuras como Lewis Mumford, que vêm dessa tradição, exerceram muita influência —  inclusive sobre mim, obviamente. E Bookchin é seu herdeiro. Estou interessado em seus ensaios sobre municipalismo libertário: fala sobre formas horizontais de organização descentralizada mas, em seguida, fala também sobre a confederação das assembleias regionais. Foca sobre as necessidades das bio-religiões, em vez de se limitar a comunidades particulares.
Ou seja, ele está disposto a pensar em uma estrutura hierárquica de algum tipo, tenta falar sobre como os poderes foram atribuídos e como devem ser. Recorre a um pequeno truque teórico de Saint-Simon: diz que pode haver gerenciamento das coisas, não de pessoas. Que deve-se gerir, por exemplo, o abastecimento de água ou o saneamento uma região — mas não o que as pessoas fazem. É muito diferente da política real, mas a ideia, e o pensamento de Bookchin em geral — me parece muito interessante.
Participei, há duas semanas, de uma reunião em Nova York, com David Graeber. Murray Bookchin compareceu ao debate. Sua filha estava na platéia, e nós conversamos sobre reunir, num pequeno livro, uma seleção de escritos de Murray sobre o tema. Acho que é um momento muito bom para reintroduzir a tradição anarquista, que pode contribuir para o debate sobra algumas  questões mais amplas. Por exemplo, como você realiza tantas assembleias municipais e não coloca em questão o fato de algumas pessoas, com muitos recursos, converterem-se em ultra-ricos — enquanto muitos, sem recursos, reduzem-se a ultra-pobres?
Ed: Sua visão parece que, no fim das contas, será necessário um Estado. Parece que você acha que Bookchin talvez aceite isso, mas não pode admitir.
David Harvey: Sim. Você sabe: o que se parece com um Estado, é visto  como um Estado, e se expressa como um Estado… é um Estado! Há algo que se pode chamar de Estado capitalista, que poderíamos querer esmagar. Mas há, também, uma forma de organização diz respeito às relações entre diferentes assembleias e grupos. E no plano mundial, você também tem que pensar sobre certas questões como o aquecimento global. Precisam ser abordadas e compreendidas em plano global. Significa que certas  ideias sobre o que fazer têm de ser resultado de uma preocupação mundial.
John: Isso nos leva de volta a um ponto que abordamos antes, sobre as organizações com base geográfica. Existe uma oposição entre o urbano e o não-urbano?
David Harvey: Muitas pessoas me fazem essa pergunta. Elas dizem “a cidade não existe realmente hoje. Você está falando sobre o direito a algo que não existe na mais?” Ou: “você está falando sobre a cidade, por que não sobre o campo. Por que você não fala sobre as áreas rurais?”. Minha resposta é que, de fato, nos últimos cinquenta anos, nós nos tornamos um mundo totalmente urbano, e o que pode ter sido verdade há algum tempo — a existência de uma vida urbana e uma vida camponesa auto-sustentável, independente — desapareceu em grande parte. O que você vê é um contínuo entre o campo e a cidade. Na América Latina, por exemplo, se você está na área rural, as pessoas assistem aos mesmos canais na televisão, dirigem os mesmos carros. Isso é o que chamo de desenvolvimento geográfico desigual no interior do processo de urbanização.
E desse ponto de vista, você diz que as diferenças no interior das cidades são tão significativas quanto as diferenças entre a cidade e subúrbio, e o subúrbio e  as zonas não-urbanas. Há tantas diferenciações no interior do próprio processo de urbanização, que a diferença entre áreas ricas e favela é dramática — na realidade, mais dramática que a que existe entre o que acontece na cidade e fora dela.
Há formas de organização que refletem isso. O movimento dos trabalhadores sem-terra no Brasil tem conexões urbanas muito amplas e as leva muito em conta. Ele não se vê fora do mundo autônomo, mas como parte de um processo geral de urbanização. É como quero ver este processo. Há, em alguns lugares, tentativas de organizar uma cadeia de produção de alimentos para as cidades, que começa nos campos e passa por várias etapas. Vendendo a produção  diretamente aos supermercados, por exemplo — o que me parece uma ideia  muito interessante. Em El Alto [subúrbio popular de La Paz, Bolívia], um dos meus exemplos preferidos, a conectividade entre as pessoas que vivem na cidade e as que estão fora dela é muito, muito forte. Foi ampliada, nos últimos dez ou quinze anos, por causa do agro-negócio e a forma com que o campo tem se transformado em uma paisagem capitalista.
Ed: Então um urbanismo revolucionário uma forma universal de revolução política?
David Harvey: Eu diria que sim. A única razão pela qual me atenho à palavra “cidade” é que ela tem um significado icônico e é foco de sonhos e utopias. Ao mencioná-la, você está invocando o imaginário de uma cidade linda, uma cidade na colina, etc. Continuo com o termo “cidade”, mas entendo perfeitamente que, em um sentido estrito, diferenciado de todo o resto, ela essencialmente desapareceu.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Violência e controle social



Claudius
por Silvio Caccia Bava
Você liga a televisão e nos principais noticiários o que se vê é crime, caça a bandidos, violência. Há mesmo programas especialmente dedicados à cobertura de crimes e perseguições pela polícia. A cena flagrada pelas câmaras de segurança mais próximas repete à exaustão o momento em que o assaltante atira e mata sua vítima, que está indefesa. São trinta, quarenta vezes, que a cena se repete, como que martelando na cabeça do espectador quão insegura e violenta é a cidade em que ele vive.
Isso tem seus efeitos. As pesquisas de opinião identificam que, depois da saúde (52%), a segurança pública é a maior preocupação do brasileiro (33%), seguida da questão das drogas (29%). Somados, os dois últimos itens colocam-se em primeiro lugar (62%).1
A percepção de pouco menos da metade da população adulta brasileira é de que o problema da segurança piorou, especialmente nas capitais e grandes cidades. Essa visão é liderada sobretudo por mulheres entre 30 e 50 anos, com nível superior, com maior poder aquisitivo. Muitos mudaram seus hábitos, evitando sair à noite, deixando de circular por alguns bairros e ruas, mudando os trajetos rotineiros entre residência, trabalho e escola. Os cuidados com segurança crescem principalmente nas famílias com renda superior a dez salários mínimos.
Mas, paradoxalmente, há outra avaliação se ouvirmos a opinião geral dos brasileiros: 62% consideram que a situação da segurança pública está melhor ou igual do que há três anos. Alguns números respaldam essa interpretação. Os assaltos a bancos foram 1.903 no ano 2000 e caíram para 422 em 2011. O índice de homicídios no país passou de 28,9 em cada grupo de 100 mil habitantes, em 2003, para 25,6, em 2008. Nos últimos anos, a taxa tem permanecido em torno de 26 mortes em cada 100 mil habitantes. Mesmo assim, 45% dos brasileiros aumentaram os cuidados com segurança nos últimos três anos.2 Esse mesmo paradoxo podemos encontrar na questão da redução da maioridade penal, amplamente apoiada pela opinião pública. Apenas 1% dos crimes é cometido por menores de 18 anos.
Por que então esse destaque tanto para a violência quanto para uma maior punição do menor infrator? Não há apenas uma resposta para essas questões, mas, sob o domínio do medo, você se dispõe a aceitar regras autoritárias, arbitrárias, para garantir sua segurança. Você abre mão de direitos. Você aceita, ou faz vista grossa, para a execução sumária de suspeitos por parte da polícia, por exemplo. Além do que, da ótica do mercado, crime e violência vendem grandes audiências e abrem novos negócios. 
A segurança se privatiza, um mercado nacional que em 2002 era estimado em R$ 36 bilhões e apresenta um crescimento de 7% a 10% ao ano. Seu primeiro cliente são os governos, que terceirizam os serviços de segurança da administração pública (32%), seguidos da indústria (29%), bancos (23%), condomínios (7,6%), comércio e serviços (7,5%). Ela emprega um verdadeiro exército: 690 mil trabalhadores. Aqui não contam os seguranças contratados na informalidade, um exército paralelo composto principalmente de policiais em horas de folga. Para ter uma ideia das proporções, em 2003 o Ministério da Justiça registrou 506.411 policiais, 390.451 policiais militares e 115.960 policiais civis − números que não variaram muito até hoje.
Do lado da segurança pública, a atuação das polícias civil e militar tem provocado grande preocupação. Os dados do Departamento Penitenciário Nacional de junho de 2012 indicam a existência de 549.577 presos no sistema prisional brasileiro. Eram 233 mil em 2000. Em dez anos, a população encarcerada mais que dobrou.
Mas os dados mais gritantes são os dos chamados presos provisórios, que aguardam julgamento. Hoje eles são 42% e correspondem a 232.244 pessoas. Eram 165 mil em 2010 e 91 mil em 2005. O encarceramento provisório, que engloba os flagrantes e as medidas cautelares, se multiplicou nos últimos anos. O sistema mantém na cadeia, de forma ilegal, dezenas de milhares de pessoas que nunca deveriam ter sido presas ou que já deveriam ter saído.
Segundo Fernando Salla, sociólogo do Núcleo de Estudos de Violência da Universidade de São Paulo, a resposta do Estado à criminalidade é “muito mais política do que técnica”. Todo o sistema judicial é feito para prender os pequenos criminosos. Desde o flagrante ao depoimento do policial, às condições de defesa de pessoas mais pobres. 
Há como que uma divisão social do trabalho. A segurança privada garante a vigilância patrimonial, a classe média gasta mais em segurança, a polícia reprime e controla os pobres. Pode parecer simplista essa interpretação, mas há elementos para sustentá-la.

Silvio Caccia Bava
Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Assédio moral no ambiente profissional compromete a saúde

As inúmeras exigências do estilo de vida atual, marcado pela pressa e pelo consumo, ocasionam a gradual precarização das relações de trabalho. Nesse contexto, agressões psicológicas são praticadas nas empresas e repartições e, muitas vezes, as vítimas não se dão conta delas, permanecendo expostas a um ambiente hostil, que compromete a saúde.
De acordo com a psicóloga forense do trabalho Glaucia Amaral, o assédio moral “caracteriza-se pela exposição dos trabalhadores a situações humilhantes, repetidas durante a jornada de trabalho, que acarretam prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização” – afirma. O assédio pressupõe intencionalidade – como, por exemplo, o objetivo de forçar o outro a deixar o emprego -, direcionamento – quando uma ou mais pessoas são escolhidas como “bode expiatório” -, e insistência na agressividade, com degradação deliberada das condições de trabalho.
A psicóloga ressalta que ambientes estressantes são terrenos férteis para a prática do assédio moral. “A situação evolui quando a vítima percebe a má intenção de que é objeto e as críticas a seu trabalho se tornam maldosas e as palavras, injuriosas” – explica. Ela alerta que o assédio moral deixa marcas psicológicas na vítima, porém os levantamentos sobre o assunto no país não fornecem números muito confiáveis. “Quase não há estatísticas sobre assédio moral no Brasil, porque isso só seria possível de duas maneiras: se os sindicatos de classe tivessem atendimento psicológico que fornecesse resultados reais ou se as empresas compartilhassem informações coletadas pelo setor de Recursos Humanos – o que não é de interesse delas” – comenta.
Apesar da dificuldade em comprovar a agressão, porque vítimas e testemunhas têm medo de perder o emprego, o assédio moral é crime e gera até dois anos de reclusão. Provas de assédio moral costumam ser testemunhais, mas podem ser feitas por meio da apresentação de e-mails, atas de reunião, fichas de acompanhamento de desempenho ou gravações que comprovem a agressão. A gravação de uma conversa não é crime e pode ser uma prova legítima em alguns tribunais.
Assédio moral no funcionalismo público
A Câmara de Catanduva criou uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para apurar um possível caso de assédio moral na Secretaria de Assistência Social. Ele veio a público em março, quando a assistente social Patrícia Rocha de Souza Rodrigues faleceu devido a um acidente vascular cerebral (AVC) e sua mãe, Aparecida Rocha de Souza, responsabilizou a secretária da pasta, Carmen Pizarro, pelo ocorrido. Segundo Aparecida, Patrícia reclamava havia duas semanas da forma como era tratada pela chefa. As colegas, inclusive, alertaram a assistente social sobre uma possível exoneração.
Para o vereador Amarildo Davoli (PT), que propôs a CEI, o assunto põe em dúvida a credibilidade do poder público. “Se há assédio, deve ser punido; se for calúnia, deve ser reparada” – afirma. Em abril, o vereador Wilson Paraná (PT) pediu, ao Executivo, a abertura de uma sindicância para investigar a prática de assédio moral no Centro de Saúde Dr. José Perri, o “Postão”. Segundo ele, os funcionários da unidade de saúde afirmam sofrer humilhações e ameaças; alguns deles já teriam pedido transferência e aposentadoria antecipada por não suportar os abusos da chefia. Paraná também cogita a hipótese da formação de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar o caso.
Um bancário conta as humilhações de que foi vítima
Um bancário de Catanduva, que não quer se identificar para não sofrer represálias, afirma ser vítima de assédio moral há cerca de um ano. Segundo ele, as perseguições começaram quando ele questionou as posturas adotadas pelos gestores, que ferem direitos conquistados pela categoria. “Passaram a chamar minha atenção na frente de colegas e clientes quase diariamente, causando situações constrangedoras. Parece que há um complô orquestrado para manchar minha imagem” – afirma.
A agressão se refletiu na saúde do trabalhador, que desenvolveu pressão alta, tem falta de ar e tremor – sintomas de transtornos psicológicos causados pela ansiedade. Outro fator que motiva o assédio moral nos bancos é a pressão para o cumprimento de metas abusivas, já que os números atingidos pelos bancários determinam, muitas vezes, o valor que vai para os bolsos de seus superiores.
O presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e Região, Roberto Carlos Vicentim, afirma que as vítimas de assédio moral devem levar os problemas aos sindicatos, que têm a obrigação de defender os trabalhadores e preservá-los, mantendo o anonimato. “Quando um caso chega ao Sindicato, nós apuramos e, comprovado o abuso, exigimos uma atitude radical do banco. Desta forma, já garantimos que vários assediadores fossem afastados ou desligados” – afirma.
Fonte: Revista Proteção

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Observatório da Imprensa: Gás de provocação

 Por Mauro Malin em 14/06/2013 na edição 750

Mais do que de gás de pimenta, há no ar um forte cheiro de provocação.
O leitor pode escolher: ou o governo de São Paulo é de uma incompetência notável no manejo da polícia, ou é mais competente do que imaginam os que nunca viveram situações em que a provocação funcionou.
Os jornais de São Paulo e do Rio não podem ignorar, como fazem dia após dia, o contexto político em que ocorreram as recentes e ocorrerão as próximas manifestações contra aumentos de passagens de ônibus.
Não está ao alcance dos manifestantes, nem dos que os chamaram às ruas, determinar o contexto. Ele é dado pelo calendário político.
Tudo que ocorre no país desde que o ex-presidente FHC pôs na pista a candidatura a presidente do ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves, e foi imediatamente seguido pelo ex-presidente Lula e pela presidente Dilma Rousseff, insere-se no antecipado processo eleitoral de 2014 (como se sabe, além do presidente serão eleitos governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais).
A Rota começou
Jornalistas e outras testemunhas não hesitam: a manifestação de quinta-feira (13/6), em São Paulo, não teve caráter violento até uma intervenção da tropa de choque, não por acaso a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), intervenção assim descrita por Elio Gaspari na Folha de S. Paulo de sexta-feira (14/6):
“Num átimo, às 19h10, surgiu do nada um grupo de uns 20 PMs da Tropa de Choque, cinzentos, com viseiras e escudos. Formaram um bloco no meio da pista. Ninguém parlamentou. Nenhum megafone mandando a passeata parar. Nenhuma advertência. Nenhum bloqueio, sem disparos, coisa possível em diversos trechos do percurso.
“Em menos de um minuto esse núcleo começou a atirar rojões e bombas de gás lacrimogêneo. Chegara-se a Istambul.”
O que se viu em seguida, e a mídia toda tem descrito com detalhamento crescente, foi uma exibição de força para a arquibancada (dolorosa e aterrorizante para quem estava no chamado teatro dos acontecimentos).
A palavra teatro vem a calhar, porque se trata de um palco em que os dois lados – manifestantes e repressores – buscam os holofotes midiáticos.
Violência eletiva
Se a força policial paulista quisesse evitar o confronto, não o teria iniciado. Quase todo dia há manifestações na Avenida Paulista. Perturbam o trânsito. Chegam a pôr em risco pessoas que estão sendo levadas a atendimento de urgência nos vários e importantes hospitais da área. Mas muito raramente degeneram em quebra-quebra. Muitas delas descem a Avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção à Assembleia Legislativa escoltadas pela Polícia Militar.
Quem faz essa escolta civilizada não é a Rota, nome de guerra do 1º Batalhão de Polícia de Choque da PM, que muitos jornalistas ainda insistem em denominar “tropa de elite”. São homens de outros batalhões (inclusive motociclistas do 2º Batalhão de Choque).
O comando da Polícia Militar, que é subordinado ao governador Geraldo Alckmin, reservou a Rota para a manifestação de força de quinta-feira. O pretexto foi o “crescimento da violência” praticada por manifestantes, que fez o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, afirmar na terça-feira (4) que a atuação da PM na véspera fora correta.
Pode-se imaginar que a nova Revolução Brasileira terá começado com os protestos contra aumentos de passagens de ônibus (aumentos que pesam muito no bolso dos passageiros e nada no de quem os determina). Qualquer um é livre para acreditar ou não nisso.
Exaltados e provocadores
Mas há pelo menos mais uma interpretação possível, talvez mais realista.
Para simplificar, examinemos brevemente os dois “polos opostos” da quinta-feira (6): “vândalos” e Rota.
Os vândalos propriamente ditos eram minoria na manifestação, como são por definição. Quebrar, tocar fogo seria uma forma de expressar um inconformismo difuso. Ou realizar uma ação eletrizante. Ou se divertir com o que a classe média odiada pela professora Marilena Chauí chama de bagunça.
A maioria dos “vândalos” quebra, põe fogo, joga pedras com objetivos políticos: “a violência é a parteira da História”. Há um pequeno número que tem objetivos políticos opostos: são os provocadores. Nem precisam se “infiltrar” em manifestações onde se permitem rostos encobertos. E estão ali para fazer o caldo entornar.
A Rota, do outro lado, não precisou de provocação. Ela provocou. Em seguida, não faltaram pedradas etc. para “justificar” o discurso do governador Alckmin. “É dever da polícia proteger a população e garantir o direito de ir e vir e preservar o patrimônio público e privado (...)”, disse ele na sexta-feira (14/6).
A mídia, quando viu a selvagem violência estudada da Rota se voltar contra jornalistas, pôs a boca no mundo. Ótimo. Sem jornalismo livre e atuante, que atraia justificadamente a ira dos governos, não há democracia. Mas não fez, até agora, a indispensável pergunta: a quem aproveitam os incidentes?
Linha dura
Alckmin, às voltas com uma onda de latrocínios e outras modalidades de homicídio, engajou-se na campanha pela redução da maioridade penal para 16 anos. O PCC agradecerá o reforço de suas fileiras nas cadeias paulistas com o envio de sangue novo.
A maioria dos eleitores apoia esse tipo de falsa solução. O Datafolha fez onze pesquisas sobre pena de morte entre 1991 e 2008. Em todas, a maioria dos entrevistados é a favor da pena de morte.
Uma verdade sobre a qual os democratas deveriam meditar: apesar de encherem a boca em elogios à democracia brasileira, quando se examina o voto popular nos últimos 28 anos (desde as eleições de 1985 para prefeitos de capitais e outros municípios ditos de interesse da “segurança nacional”) pode-se constatar que a direita (em suas diferentes indumentárias), apesar das aparências, não se saiu mal. Essa hipótese ainda está à espera de estudos mais elucidativos.
Boinas Negras”
Para captar a sinalização política da Rota, visite-se o site do batalhão do batalhão, em cuja página de abertura se encontra a seguinte passagem num texto dedicado à história dos “Boinas Negras”:
“Mais uma vez dentro da história”, o 1o Batalhão etc., “é chamado a dar sequência no (sic) seu passado heróico, desta vez no combate à Guerrilha Urbana que atormentava o povo paulista. Havia a necessidade da criação de um policiamento enérgico, reforçado, com mobilidade e eficácia de ação”.
Uma leitura infinitamente mais qualificada é o livro-reportagem Rota 66 – A História da Polícia que Mata, do jornalista Caco Barcellos, publicado em 1993.
Caramante e Telhada
E convém lembrar que em outubro passado o repórter da Folha de S. Paulo André Caramante e sua família foram forçados a se exilar devido a ameaças instigadas no Facebook pelo coronel da reserva da PM Paulo Telhada, que acabara de deixar o comando da Rota e se vangloriava de ter matado trinta e tantas pessoas “em combate”.
Caramante, ao voltar à Folha, deixou a reportagem policial.
Telhada foi eleito vereador em São Paulo, quinto mais votado, com 89 mil votos. É filiado ao PSDB do governador Geraldo Alckmin.