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sábado, 6 de julho de 2013

O herói da revista Veja é dublê da Globo

Apresentado pela revista Veja como a “voz que emergiu das ruas”, Maycon Freitas coleciona pérolas que provocam vergonha alheia até nos mais calejados. Em vídeo, jovem dispara: “Eu trabalho na Globo. É o melhor trabalho do mundo”

maycon freitas globo veja
Tomado por um ataque de fúria, Maycon desabafa contra o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e os direitos humanos (foto abaixo). Essa voz emergiu mesmo das ruas ou de uma boca suja, mimada e ignorante?
Maycon Freitas, o entrevistado das Páginas Amarelas da Veja desta semana (veja aqui), como “representante” dos manifestantes da onda de protestos que tomou as ruas, presta serviços como dublê a Rede Globo de Televisão.
globo maycon freitas veja
(Imagem – Reprodução)
A Veja, é claro, nem se importou que Maycon tenha quase o dobro da idade da maioria dos manifestantes, mas o transformou num grande ativista cibernético.
Apresentado como “a voz que emergiu das ruas”, Maycon é exposto como líder de uma comunidade no Facebook , a União Contra a Corrupção, onde se publica ou republica coisas como essa imagem aí do lado, dizendo que os médicos cubanos (cadê?) são guerrilheiros disfarçados e que um golpe comunista está em marcha. É mentira, a página é mantida por Marcello Cristiano Reis, um advogado paulista.
Se tivesse ido olhar o perfil de Maycon no Facebook veria que, antes de virar “celebridade”, suas últimas postagens continham pérolas do tipo:
“Mulher que diz que homem é tudo igual. É porque nunca soube fazer a diferença na vida de um.”, ou
“No carnaval as mina pira , em novembro as mina ”pari”. “No carnaval os mano come, em novembro os mano some.”
Antes, em 2002, a vida estava boa para Maycon, como você pode ver nas fotos do líder de massas em Cancún, no México, num turismo “padrão FIFA” de deixar a gente com inveja. Como está sofrendo o revoltado Maycon!
maycon freitas veja globo
(Reprodução – Facebook)
Ah, essa internet…
Ah, essa Veja…
PS. Até de um mistificador como o Maycon a gente respeita a privacidade. Todas as fotos são públicas no seu Facebook, não necessitam de compartilhamento.
Vídeo. Assista Maycon Freitas em ação, a voz que emergiu das ruas:
Por: Fernando Brito, Tijolaço.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Esquerda que apanhou unida se juntou. Mas, qual é mesmo o objetivo?






Duas estratégias: unir a esquerda para avançar as mobilizações ou para proteger o governo Dilma?

por Valério Arcary*

Todos juntos nessa luta pela unidade popular,
Mas, se estamos todos juntos,
contra quem vamos lutar?

Versos cantados por delegados da esquerda socialista no Congresso da UNE, em resposta à moção que defendia a estratégia de unidade de toda a oposição à ditadura militar, sob a liderança da burguesia liberal que se expressava através do MDB de Tancredo e Montoro, contra a unidade operário-estudantil.
O ataque dos fascistas contra a esquerda produziu uma reação extraordinária durante a última semana. A defesa do direito da esquerda de ir às ruas levantando suas bandeiras vermelhas uniu muitos milhares de jovens nos últimos dias, por todo o país, em uma mobilização unitária, entusiasmada e lúcida.
A unidade da esquerda nas ruas foi emocionante
As fotos da assembléia-monstro no Largo São Francisco, no Rio de Janeiro, para preparar o dia 27 e a ida ao Maracanã no dia da final da Copa das Confederações, emocionaram a esquerda, profundamente, em todo o Brasil. Processos semelhantes se repetiram, em formas variadas, mas com o mesmo conteúdo, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Belém, e Recife, entre muitas outras cidades menores. Surgiu do enfrentamento do dia 20 de junho com os fascistas um poderoso sentimento fraterno de que precisamos nos unir para vencer. Isso foi magnífico.
Estamos diante da urgência da política. Os dias agora valem por meses, as semanas por anos. Tudo se acelerou. O debate aberto na esquerda pelas mobilizações das últimas três semanas coloca na ordem do dia um dilema: a esquerda precisa se unir para poder ajudar o movimento da juventude a avançar na direção de novas vitórias, sob pena de perder uma oportunidade histórica de transformação do Brasil. Uma janela de oportunidade que não se abre com facilidade. A divisão da esquerda repercutirá de forma dramática sobre as possibilidades da luta em curso, porque está aberta uma disputa sobre o destino do combate de milhões. Esses milhões estão em luta porque têm pressa.
Um debate de estratégia é incontornável
Não obstante, isso não deve nos inibir de dizer que, infelizmente, existem dois grandes campos políticos na esquerda, hoje no Brasil, que remetem a um dilema de estratégia, e que vai se expressar em polêmicas táticas de todo o tipo. Estes campos têm diferenças irreconciliáveis.
Sendo assim, é melhor debater as estratégias. Porque é mais educativo. As questões mais de fundo, que remetem ao tema da atitude diante do poder, são inescapáveis. As diferenças não são artificiais, não são produto de exageros sectários. Não são pequenas escaramuças, miudices, picuinhas. Estes campos são maiores que os partidos de esquerda. Porque são muitas dezenas de milhares de ativistas que se interrogam sobre qual deve ser o caminho a seguir. A imensa maioria não tem militância partidária. Compreende a gravidade da situação. Tem boas razões para estar preocupada.
Dois campos em disputa
Em um campo estão aqueles que compreendem que a mobilização pelas reivindicações deve avançar, tendo a prioridade de unificação com os trabalhadores, ou seja, a preparação de um dia de greve geral para 11 de julho. Este campo afirma que, para lutar contra os empresários do transporte urbano, os banqueiros, os fazendeiros do agrobusiness, a FIESP, não é possível dar trégua a nenhum governo.
A nenhum significa isso mesmo, a nenhum, nem a Dilma. Depois de dez anos, ficou claro que os governos liderados pelo PT, em aliança com partidos burgueses, estão mais comprometidos com a preservação do pagamento da dívida pública do que com os transportes públicos, a educação e saúde públicas. Sem romper com o pagamento da dívida pública, de onde viriam as verbas para os investimentos necessários à implantação, por exemplo, do passe livre?
Os que nos colocamos nesta posição queremos ajudar a juventude nas ruas a continuar ocupando as avenidas com as reivindicações que ela mesma foi forjando pela sua experiência prática: conquista do passe livre, desmilitarização das PMs, mais verbas para educação e saúde, punição dos corruptos. E queremos agregar as reivindicações que respondem às necessidades do proletariado: o aumento dos salários e a redução da jornada de trabalho, por exemplo, ou a anulação da reforma da previdência e a suspensão dos leilões de privatização do petróleo do pré-sal, e tantas outras.
Os termos do dilema, que é sempre uma escolha difícil, são, portanto, terríveis, mas claros: Dilma está disposta a romper com o PMDB? Porque atrás do PMDB estão as empreiteiras com contratos milionários para a construção das grandes obras e estádios, por exemplo. E a esquerda que apoia o governo, ainda que criticamente, como as várias tendências internas do PT, o PC do B, a Consulta Popular ou o MST, se Dilma não atender às reivindicações, e não romper com o PMDB e os outros partidos burgueses, estão dispostas a romper com Dilma?
Em outro campo estão aqueles que consideram que é preciso unir a esquerda para defender o governo Dilma, porque o maior perigo seria a desestabilização do governo liderado pelo PT, ou até do regime democrático. Estão, podemos admitir, comprometidos em fazer exigências ao governo Dilma. Exigências para que Dilma abra negociações com as reivindicações das massas em luta. Exigências para que o PT no governo não capitule diante do PMDB de Michel Temer e Sérgio Cabral. Ou exigências para que o PT fora do governo não capitule aos ministros do PT que aconselham moderação a Dilma. Em resumo, estão engajados em pressionar o governo Dilma, mas não estão dispostos a romper com ele. E reafirmam que não era possível antes de junho, e continua não sendo possível, mesmo depois de milhões nas ruas, construir uma esquerda à esquerda do governo Dilma.
É preciso lutar, é possível vencer
Qual estratégia é o melhor caminho para vitórias populares? Qual estratégia irá prevalecer? Qual dos dois campos tem uma melhor apreciação do que está em disputa, e a melhor orientação para transformar o Brasil? Seria estupendo, realmente, fantástico, se as mobilizações de jovens e trabalhadores fossem o bastante para exercer uma pressão de classe suficiente para impor uma frente única de toda a esquerda. Essa é a vontade dos ativistas, é a vontade de todos os que sabemos contra quem lutamos. Porque para vencer o mais elementar é preciso saber contra quem lutamos. Saber quem são os amigos e quem são os inimigos.
Infelizmente, nunca é assim. A pressão das lutas não é o bastante. Outras pressões políticas que, em uma interpretação de classe, respondem a pressões das classes inimigas dos trabalhadores se abatem, também, sobre a esquerda. Diante de grandes acontecimentos, ensina a experiência histórica, algumas correntes de esquerda, que mantinham posições muito distantes umas das outras, se aproximam. E outras, que estavam próximas, se afastam. Em outra etapa da vida política brasileira se apresentou, dramaticamente, o mesmo dilema para a esquerda. Com quem nos unirmos, para lutar contra quem? Ou, enunciando de outra maneira, independência ou colaboração de classes?
A polêmica do final dos anos setenta e início dos oitenta
Em 1978/79, quando uma nova situação se abriu no Brasil, colocou-se um problema de estratégia política chave. Qual deveria ser a orientação para acelerar a derrota da ditadura militar? Estava ficando cada dia mais claro, depois das greves metalúrgicas do ABC, das greves de professores, de bancários e outros setores da classe trabalhadora, que era possível construir nas ruas uma mobilização de massas para derrotar a ditadura.
A classe dominante estava, crescentemente, dividida, entre uma maioria que aceitava a abertura lenta e gradual, ou seja, uma transição para um regime democrático-eleitoral negociada com os militares, e aqueles que resistiam, porque temiam, em função do medo das classes populares, a ampliação das liberdades democráticas. As classes médias tinham rompido, majoritariamente, com o regime. A classe trabalhadora começava a se mexer e a ganhar confiança em sua capacidade de luta.
A esquerda que vinha se fortalecendo nas lutas estudantis e na reorganização do movimento dos trabalhadores se dividiu em dois campos. De um lado, principalmente, o PCB, o PC do B e o MR-8 defendendo a unidade das oposições. O que significava que o monopólio da liderança política na luta contra a ditadura ficava nas mãos do PMDB.
Ninguém deveria disputar com Ulysses e Tancredo a condição de porta voz das oposições. Acontece que a liderança do PMDB temia mobilizar as massas contra a ditadura e aceitava o calendário eleitoral imposto por Geisel e Figueiredo. O PMDB não estava disposto a mobilizações de massas, porque sabia que o perigo era a entrada em cena dos trabalhadores, com sua força social de choque, seus métodos e suas greves. E o PMDB era um partido com apoio, essencial e primeiramente, empresarial.
No outro campo, estava a esquerda que se uniu em torno do projeto que nasceu das greves operárias e das manifestações estudantis, levando à fundação do PT em 1980, e da CUT, em 1983. Este campo se posicionava contra uma transição negociada e lutava pela derrubada da ditadura. Lutava pela perspectiva de um deslocamento da ditadura pelas lutas, não em conchavos no Congresso Nacional.
O PMDB era o partido da oposição institucional, o PT era o partido da independência dos trabalhadores, que não aceitava que a maioria proletária continuasse a ser massa de manobra entre diferentes alas da classe dominante. Os moderados de esquerda argumentavam exatamente como agora: não é possível ultrapassar Ulysses e o PMDB pela esquerda. A luta provou que eles estavam errados. Foi porque o PT chamou às ruas e começou a campanha das Diretas Já! no Pacaembu que o PMDB, ainda que dividido, se mexeu. O drama atual é que a maioria daqueles que foram os radicais em 1980/83 agora são os moderados. De incendiários, viraram bombeiros.
O dilema de estratégia que se coloca agora, trinta e cinco anos depois, no entanto, é o mesmo. O papel da esquerda deve ser o de ajudar a juventude e os trabalhadores a construir um campo independente? Ou ela deve se resignar a ser um vagãozinho atrelado ao trem que é dirigido por uma ala da classe dominante contra outra ala? Só podemos escolher entre o governo Dilma ou um governo da direita? Ou esta onda de lutas pode ajudar a nova geração a retirar conclusões políticas e ir além? Não é possível pensar em um poderoso campo de oposição de esquerda, que permita ir além do reformismo quase sem reformas dos dez anos dos governos Lula e Dilma? Qual o caminho para avançar na direção da revolução brasileira?

*Valerio Arcary é professor do IF/SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) e doutor em História pela USP

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Liderança de Sartori e riscos da autopromoção



O Tribunal de Justiça de São Paulo informa no noticiário em seu site:

O desembargador Sérgio Rui da Fonseca acompanhou  (dia 28) um grupo de servidores [foto] que veio à Presidência do Tribunal de Justiça entregar ao presidente Ivan Sartori um complemento à lista de 11 mil assinaturas de apoio à gestão na condução do Poder Judiciário paulista, entregue no último dia 3. Nessa ocasião, o presidente perguntou se não existiam assinaturas em duplicidade. Os servidores levaram cópia da lista para a checagem e, hoje, retornaram com mais assinaturas. Segundo eles, agora são 20.237 nomes.

Há um movimento entre magistrados e servidores a favor da reeleição de Sartori, que introduziu importantes mudanças no tribunal –entre elas a transparência numa Corte tradicionalmente fechada e o diálogo direto com magistrados de primeiro grau e com o funcionalismo.
Sartori rompeu privilégios e mostrou disposição para enfrentar a cúpula da Corte, trazendo à tona irregularidades no caso das antecipações a desembargadores e a servidores ligados aos magistrados que cuidavam do orçamento.
Embora resistente a críticas, Sartori é comunicativo e ostenta uma liderança inegável entre colegas desembargadores, juízes de primeiro grau e servidores. O sucesso de sua gestão é reconhecido nacionalmente, tendo levado o juiz paranaense Roberto Bacellar, candidato da situação à presidência da AMB, a convidá-lo para o cargo de vice-presidente em sua chapa.
Como informou este Blog, a Associação Paulista dos Magistrados (Apamagis) decidiu fazer uma pesquisa “on line” com todos os associados para saber se são favoráveis à reeleição de Sartori.
As imagens de Sartori cercado por servidores do Judiciário, em Ribeirão Preto, no último dia 20/6, e por presidentes de tribunais e de associações de magistrados em 24/6 na sede do TJ-SP reforçam a curiosidade sobre os projetos de Sartori, que ostenta forte liderança no momento em que a magistratura admite viver um clima de desalento e desprestígio.
Essas circunstâncias talvez tenham inibido eventuais alertas –de seguidores ou de opositores– sobre os riscos da autopromoção no serviço público, como a interpretação de uso do noticiário oficial para reforçar projetos pessoais.
Reportagem de Mario Cesar Carvalho, publicada na Folha em 9/6, revela que ele já foi sondado para se candidatar a deputado estadual. “Gosto de ser juiz. Mas se eu puder ajudar os colegas do Judiciário… Poderia ir depois do mandato”, cogita.
Ainda segundo o texto, “a reeleição pedida pelos funcionários também está no radar de Sartori, mas ele teme que a questão se arraste em disputas judiciais no Supremo ou no CNJ”.
“Eu não vou brigar para ser reeleito. Tem de haver consenso. Se não houver, não vou nem entrar na disputa”, disse o presidente.
Supõe-se que haja candidatos a candidatos à presidência que não têm o mesmo veículo promocional. O eleitorado para o TJ-SP são só os desembargadores. Essa propaganda toda não deve surtir muito efeito entre eles.
Como afirma um magistrado, “teoricamente Sartori corre o risco de ser cobrado, mas ele está tão popular que o autor da cobrança ficaria mal visto”.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A cidade, suas escolhas e consequências


Rogério Daflon e Camila Nobrega
do Canal Ibase

Toda cidade tem suas escolhas. A opção de se gastar um montante de mais de R$ 1,2 bilhão na reforma do Maracanã é algo razoável? Não, não é, afirmam urbanistas do Rio e especialistas de outras áreas, indignados com a terceira reforma do estádio. As mudanças em curso no “Maraca” estão também no topo da lista das críticas de manifestantes que tomaram as ruas do Rio de Janeiro, especialmente nos protestos deste domingo, enquanto a seleção brasileira se preparava para disputar a final da Copa das Confederações com a Espanha. Os preços de ingressos foram proibitivos para boa parcela dos cariocas. A crítica invadiu até os gramados do estádio. Antes do início da partida, um casal que fazia parte da coreografia oficial abriu uma faixa pedindo a “anulação da privatização do Maracanã”.
O gigante já havia custado aos cofres públicos mais de R$ 400 milhões em duas reformas anteriores:  em 2000 e 2007, ou seja, um Engenhão inteiro fora torrado ali. E não para por aí. O Maracanã, parafraseando famoso refrão, não é mais nosso. Apesar de ser um bem tombado, o governo do estado derrubou a antiga cobertura com uma autorização apenas da superintendência doInstituto do Patrimônico Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que seria duramente criticada pelo próprio conselho do Iphan em Brasília. Com o estádio já quase pronto, o governo do estado fez uma concessão cuja concorrência foi vencida pelo grupo formado pelas empresas Odebrecht (com 90%), IMX Venues e Arena S.A (de propriedade de Eike Batista, com 5%) e AEG Administração de Estádios, que  vão ficar à frente do estádio nos próximos 35 anos. E ainda faltam obras no entorno do estádio com previsão de mais de R$ 300 milhões.
Foto: David Schenfeld
O caso do Maracanã chama muita atenção, mas talvez haja outros ainda mais sérios, como o abandono do  Morar Carioca, o programa de reurbanização de favelas. No dia 15 de outubro de 2010,  em artigo assinado pelo prefeito Eduardo Paes e pelo presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Sérgio Magalhães, na página de opinião do jornal O Globo, o prefeito fez uma promessa que, se já era difícil de tornar-se factível, agora é impossível: a de urbanizar todas as favelas do Rio até 2020. Quase três anos depois do artigo, o cenário é de desolação entre os 40 escritórios que fizeram um concurso para o IAB  àquela época, para pôr em prática o que seria o grande desafio dessa administração municipal.
- O programa foi abandonado. E, sinceramente, não sei se vou querer retomar um contrato com Eduardo Paes, que, em vez de fazer algo diferente do que se vê nas outras cidades, resolveu radicalizar a política de remoções  – diz Jonathas Magalhães, arquiteto à frente de um dos 40 escritórios contratatos para, cada um, fazer o projeto de reubanização de 260 favelas.
Política de remoções na cidade viola direitos humanos
A prefeitura, de fato, preferiu adotar outra relação com as favelas: uma política de remoções com números ainda mais cruéis do que a do governador Carlos  Lacerda (que removeu 31 mil pessoas nos anos 1960). São mais de 65 mil pessoas sendo expulsas de suas casas com total falta de transparência, de acordo com levantamento do arquiteto Lucas Faullhaber, da Universidade Federal Fluminense .
- A ideia dessa prefeitura é remover para se promover novos empreendimentos imobiliários. Para isso, ela tem modificado alguns padrões urbanísticos, como o de gabarito, a fim de induzir esse processo. Assim, o poder público desapropria e vende o terreno para esses empreendimentos imobiliários – afirma Lucas, ressaltando que a prefeitura usa como argumento que as favelas removidas eram áreas de risco. – Trata-se de um uso político do conceito de área de risco.
Na Vila Autódromo, moradores impedem a entrada da prefeitura
Na Vila Autódromo, na Barra da Tijuca, instalada num terreno cobiçado pelo setor imobiliário, o argumento de que a população está em área de risco não se sustenta. Ao tentar dar início ao processo de remoção, a prefeitura  apontou casas próximas à Lagoa de Jacarepaguá como expostas a enchentes. Ocorre que o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da UFRJ e o Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (NEPHU) da UFF fizeram um plano de reurbanização com os moradores, no qual se prevê o reassentamento das famílias que moram à beira da Lagoa dentro da própria comunidade.
- A prefeitura quando vai à Vila Autódromo não vê as pessoas só tem olhos para os terrenos. Querem desocupar para vender  – disse Jane Nascimento, moradora da comunidade, apontando um processo de desumanização na política adotada pela prefeitura.
Gisele Tanaka, arquiteta e pesquisadora do IPPUR, aponta uma estratégia perversa do poder público. Para ela, o caso da Vila Autódromo não é uma exceção no Rio.
- O prefeito, em suas declarações, tenta individualizar cada caso. Mas trata-se de um modelo de cidade que pretende abrir novas frentes imobiliárias no município. A classe média também vê a vida ficar mais difícil, porque as pessoas estão sendo varridas de todos os lugares. Mas é o pobre que recebe a violência direta.
Na Rocinha, a violência é não ouvir a população sobre a descontinuada obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O governo do estado pretende construir um teleférico na comunidade, à semelhança do que fez no Complexo do Alemão. Nos dois casos, o saneamento básico foi deixado de lado para dar lugar a uma solução de alto custo, de gosto duvidoso e que esvazia o comércio local.
Na Região Portuária, a opção é derrubar o Elevado da Perimetral, obra que vai custar alguns bilhões do dinheiro dos impostos e visa a melhorar a ambiência daquela área. Entender a relação custo-benefício disso numa cidade com tantas carências é uma missão impossível, já que o poder público municipal não quis discutir a queda do viaduto com a população.
O movimento que tem levado milhares às ruas do país se iniciou devido ao aumento das passagens de ônibus. Isso, para pesquisadores, também tem a ver com as escolhas de uma cidade. É importante entender todo o sistema empresarial que ocorre por trás do funcionamento das empresas de ônibus do Rio de Janeiro. Esse esforço tem sido feito por um grupo responsável pela campanha “Quem são os proprietários do Brasil”. Eles levantaram dados referentes ao Rio de Janeiro e descobriram que, de 2008 a 2013, R$ 250 milhões foram repassados pela prefeitura à Fetranspor pela prestação de serviços. Ou seja, a mobilidade dos cariocas é, atualmente, um negócio bilionário, como conta Alan Tygel, membro da cooperativa EITA – Educação, Informação e Tecnologias para Autogestão, que faz parte da campanha.
- Estamos tentando mostrar com dados concretos o que os movimentos sociais já vêm denunciando há muito tempo no Rio de Janeiro. A profunda imbricação do poder econômico com o poder político permite um rateio das licitações entre pouquíssimas empresas. Mostramos isso no caso das empreiteiras, das empresas de ônibus e dos mega-projetos. Estamos tentando abrir a caixa-preta para qualificar a denúncia de que o Rio está sendo vendido ao grande capital, e assim municiamos os movimentos sociais através da abertura das informações.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Em defesa da esquerda




MICHEL SILVA

Nas últimas semanas, viu-se em todo o país uma série de grandes manifestações que, em um primeiro momento, diziam respeito a diferentes questões relacionadas ao transporte público. O estopim disso tudo foi o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, passando de atos de alguns poucos milhares de militantes para grandes jornadas que reuniam centenas de milhares de pessoas e ganharam destaque inclusive na imprensa internacional. Para os mais distraídos, o país estava acordando. Contudo, havia um punhado de pessoas que, apesar de sua pluralidade e de fragmentação, militaram ativamente em greves ou outras mobilizações nos últimos anos e que sabiam que o país estava acordado havia bastante tempo. Trata-se da esquerda.
Passadas algumas manifestações, uma parcela das pessoas que participavam dos atos passou a hostilizar as organizações de esquerda, pelo simples fato de levantarem suas bandeiras. O papel que eventualmente essas organizações vinham tendo na articulação das manifestações era esquecido, bem como todo o seu histórico de luta em defesa da classe trabalhadora. Não havia importância no fato de que partidos como PCB, PSTU e PSOL, ou organizações menores como a LER-QI, lutaram lado a lado com os trabalhadores, por exemplo, nas greves do serviço público nos últimos dois anos, enquanto a imprensa, a direita, a classe média e os governos hostilizavam os grevistas. Prontamente a imprensa detectou a informação acerca da rejeição dos partidos nas manifestações e, no mesmo momento em que passou a defender os protestos pacíficos, também passou a defender o antipartidarismo.
Hostilidade da mídia é algo que a esquerda aprendeu a suportar, no Brasil de hoje e de ontem, ou em qualquer outra parte do mundo. O problema que se agravou foi o fato de que a esquerda não apenas passou a ser intimidada a baixar as bandeiras, como passou a sofrer ameaças e, para piorar, passou a ser agredida nas manifestações. O delírio autoritário direitista chegou a fazer com que fossem atacados até mesmo os sindicatos. Deixou-se, assim, um primeiro nível de hostilidade, em que somente a aparição mais explícita da esquerda era impedida, passando para outro em que, por meio de palavras e atos, se pregava a eliminação das esquerdas e até mesmo dos sindicatos. Não há outra palavra para isso a não ser fascismo.
Com isso não se quer afirmar que o país vive a ameaça de um movimento de massas fascista ou mesmo que o conjunto das pessoas que têm participado das manifestações defenda essa ideologia. Elas acreditam não defender ideologia nenhuma, embora expressem o que o senso comum espontaneamente lhes apresenta. Contudo, há duas questões concretas. Primeiro, que há atuação consciente de grupos de extrema direita nas manifestações, criando tumultos e atacando as organizações de esquerda. Segundo, as manifestações, em sua grande confusão, têm expressado pautas conservadoras, baseadas no moralismo e no nacionalismo, sem que se apresente uma estratégia para ação. Nesse meio, a crise com a política institucional, provocada pela experiência das massas com governos como o do PSDB e do PT, faz com que se crie de forma quase irracional uma extrema rejeição a qualquer partido, mesmo os da extrema-esquerda, na medida em que estes são confundidos com as legendas eleitorais vazias de conteúdo que permeiam a política brasileira.
Há alguns anos o apartidarismo tomou conta de uma parcela dos movimentos sociais, e não apenas no Brasil. Na Argentina o delírio antipartidário chegou a tal ponto que deu origem a um partido que era contra os partidos. O fato é que a crise do PT no governo e o declínio de entidades associadas a essa legenda eleitoral, como a CUT e mesmo o MST, potencializou certo ódio aos partidos. Soma-se a isso uma herança da ditadura, que transformou em algo pejorativo o substantivo “político”, quando se faz menção a alguém que possui cargo eleito por um partido. Fora isso, depois da ditadura, nenhum partido de direita conseguiu assumir um papel de liderança institucional conservadora, como aconteceu, antes do golpe de 1964, por exemplo, com a UDN.
Certo é que Movimento Passe Livre (MPL) teve, desde a sua fundação, setores que não simpatizavam com partidos, mas essa relação nunca passou do salutar embate político de ideias e concepções. Mesmo a atuação de militantes de partidos de esquerda dentro do MPL, se respeitados os princípios do movimento, não era impedida. O fato é que o MPL construiu, por meio das jornadas de São Paulo, apoiado por organizações de esquerda e outras entidades, mobilizações gigantescas que chamaram a atenção do país inteiro, que viu naquelas manifestações uma forma de colocar para fora o seu descontentamento com tudo e com todos.
Contudo, o programa do MPL não foi além da revogação do aumento da tarifa e da gratuidade do transporte e logo setores conservadores, organizado ou não, fizeram da sua pauta a reivindicação máxima do país inteiro: contra a corrupção. Essa palavra de ordem não tem qualquer originalidade, afinal em qualquer parte do mundo uma direita que se preza tem essa reivindicação como seu eixo principal. No caso do Brasil, alguns dos maiores defensores do combate à corrupção foram os ditadores que derrubaram João Goulart, em 1964. Eles mesmos acabaram com os partidos e limitaram as ações dos sindicatos. E foram defensores aguerridos do nacionalismo, fazendo isso se expressar justamente no insistente canto do hino nacional. Coisa muito similar foi o fascismo, o nazismo e, no Brasil, o integralismo.
Em algum momento das recentes manifestações os herdeiros desses movimentos de extrema-direita surgiram, seja por meio de suas próprias formas de organização, seja por meio de frações dos partidos de direita, seja por meio da ação policial. Panfletos contra os partidos de esquerda começaram a se proliferar, nos atos e fora deles. Nas redes sociais começaram os ataques a militantes, movimentos sociais e partidos, e chegou-se a convocar uma nova Marcha da Família, aos moldes daquelas do contexto do golpe de 1964. E, para piorar, esses grupos começaram a levar sua política (que em certo sentido é partidária) para os atos e, para piorar ainda mais, levaram seus métodos para os atos. Não precisa conhecer muito de história para saber que o principal método do fascismo nunca foi o argumento, mas a força.
Desgraçadamente, muitas das últimas manifestações tiveram saldos terríveis de agressões não apenas verbais, mas também físicas à militância de esquerda. Entidades e centrais sindicais, partidos, anarquistas, movimentos de diversidade sexual, entre outros setores, sofreram violentas agressões, dentro dos atos, provocando inclusive a divisão de algumas manifestações. Em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo a extrema-direita não poupou violência contra qualquer pessoa que pudesse ser associada a qualquer coisa que lembrasse a esquerda, ou mesmo que levantasse qualquer bandeira que não fosse a verde e amarela.
O fascismo no Brasil ganhou uma nova face, em certo sentido voltando a suas origens, inserindo-se nos movimentos sociais. Seu discurso fácil dialoga de perto com o senso comum, forjado no liberalismo e no conservadorismo, que permeia a maior parte das manifestações pelo país. Embora com algumas conquistas pontuais, as manifestações possivelmente continuarão em algum sentido, tendo em foco agora não a luta pela da redução da tarifa, mas sim do fim da corrupção e outras questões genéricas.
Nessas últimas manifestações não se percebe um projeto para o país, como em algum momento defendeu a esquerda nacionalista, ou uma estratégia de transformação social, como defendem os socialistas. O que há é uma indignação vazia, sem politização, que pretende unicamente resolver os problemas mais superficiais que seus olhos conseguem enxergar de perto. Será dentro desse contexto sem politização e imediatista que a extrema-direita, que tem clara sua estratégia política, tem a possibilidade de crescer e se tornar uma força política muito mais ampla do que a meia dúzia de minúsculos grupos hoje espalhados pelo país.
Para a esquerda, não há outro caminho que não a unidade na luta contra o fascismo e, mais do que nunca, o reafirmar de suas bandeiras de transformação social e de defesa dos interesses dos trabalhadores, nas manifestações e nas lutas cotidianas. Nesse momento, é tarefa da esquerda, articulada aos sindicatos e demais movimentos sociais, construir ações unitárias que apontem para um programa que expresse os interesses mais sentidos dos trabalhadores. E, mais do que isso, a esquerda precisa ter a clareza da estratégia socialista, de superação da sociabilidade capitalista, e de quais são os caminhos que os revolucionários precisam trilhar para caminhar juntos.

* MICHEL SILVA é doutorando em História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um novo tempo, apesar dos perigos

 
 
Por Valter Pomar, em seu blog:

1. As grandes mobilizações ocorridas no Brasil, desde 13 de junho de 2013, constituem motivo de comemoração e otimismo. O país, nosso governo e nosso Partido necessitavam deste chacoalhão, que abre a possibilidade de avançarmos, e avançarmos mais rápido, no processo de reformas sociais e políticas. Mas para isto é preciso fazer uma detida reflexão sobre os acontecimentos, para a qual apresentamos a contribuição a seguir.


2. Os acontecimentos das últimas semanas não constituem um raio em céu azul, ao menos para os que vinham acompanhando a mudança nas condições do país, desde o início do governo Dilma. Vários setores do Partido, inclusive a Articulação de Esquerda, já apontavam (http://pagina13.org.br/2013/04/manifesto-a-esperanca-e-vermelha/) para os limites de nossa estratégia, as contradições crescentes de nossa política, as mudanças sociológicas e geracionais do país, a alteração na postura do grande capital, a ofensiva ideológica e política da direita partidária e midiática, o distanciamento das bases sociais e eleitorais e, principalmente, para o fato de que a política econômica vem provocando um atendimento limitado às necessidades e demandas das massas populares. Não apenas a AE e setores da esquerda petista, mas o próprio Diretório Nacional do PT já apontara, na convocatória do V Congresso do Partido (http://www.jptrn.com.br/2013/05/convocatoria-para-o-v-congresso.html), a necessidade de reformas estruturais mais profundas no país, inclusive no âmbito da comunicação, educação e cultura. Mas mesmo quando esta crítica comparecia nos discursos, não era a interpretação nem a postura predominantes na prática. Nesse sentido, é necessário e pedagógico recordar alguns fatos, ocorridos antes de 13 de junho de 2013.

3. A imprensa atribuiu a um afamado marqueteiro –categoria cuja nefasta influência política deve ser repensada— a opinião de que as pesquisas apontavam para uma reeleição de Dilma já no primeiro turno. Avaliação equivocada que havia sido cometida em 2010, quase resultando em danos irreparáveis.

4. Nas atividades comemorativas dos dez anos de governos Lula e Dilma, o reconhecimento dos erros, insuficiências e contradições era muitas vezes soterrado por um discurso de auto-propaganda, que também pode ser encontrado em publicações recentes acerca do tema. Não temos dúvida de que hoje estamos melhor do que estávamos na era FHC, e de que estamos melhor do que estaríamos sob Serra e Alckmin. Mas estaríamos ainda melhor se tivéssemos aplicado o conjunto do programa do PT, sendo necessário reconhecer as limitações do que foi feito e o quanto ainda resta por fazer.

5. Era frequente, entre amplos setores do Partido, uma postura arrogante que minimizava a força política e ideológica de nossos inimigos, assim como as decorrências negativas do tipo de governabilidade adotada, entre as quais a influência do do PMDB e a presença crescente de fundamentalistas de direita em partidos da base do governo, sendo Marcos Feliciano seu símbolo mais vistoso, compondo um Congresso Nacional que tem derrotado a imensa maioria das propostas progressistas. Virou hábito dizer que a oposição de direita “não tinha programa”, “não tinha proposta”, “estava dividida”, “não conseguia influenciar a opinião pública, só a opinião publicada”, dependia “apenas” do PIG etc. Cegueira política e preguiça intelectual, incapaz de perceber os desdobramentos do que vem ocorrendo no Brasil há anos: uma brutal ofensiva ideológica do conservadorismo, que assume ademais novas formas e conteúdos, por exemplo através da agitação e propaganda nas novas e velhas mídias. Ofensiva contra a qual o governo e o Partido não ofereceram devida resistência. Pelo contrário: na Comunicação, na Casa Civil e em outros ministérios, brotam frequentes sinais de apoio prático e retórico às teses de direita.

6. Finalmente e mais importante, tornou-se frequente confundir a fotografia com o filme. A fotografia dos índices de pesquisa era favorável. Mas o filme mostrava uma realidade em movimento: uma mudança na postura do grande capital em relação ao nosso governo; a radicalização política e ideológica de setores médios contra as posições de esquerda; a insatisfação crescente de setores da classe trabalhadora tradicional; e uma ambiguidade no apoio da "nova classe trabalhadora". Mostrava, também, grandes novidades geracionais: a mais alta proporção de jovens e jovens trabalhadores no conjunto da população, com acesso a empregos precários e mal remunerados, dividindo seu tempo entre trabalho, estudo e transporte, o que ajuda a entender porque a qualidade do transporte e o valor das tarifas são temas tão sensíveis.

7. Estes e outros elementos eram completamente perceptíveis antes do 13 de junho de 2013. Tomados isoladamente ou de conjunto, as reuniões das direções partidárias, de nossas bancadas, das nossas lideranças sociais e intelectuais apontavam para tais problemas. Mas o Partido como um todo, e o governo em especial, foram incapazes de sintetizar isto numa orientação alternativa. O que reforça algo que todos sabemos: é preciso mudar a dinâmica partidária, bem como a relação entre partido e governo. E sem cair na tentação de personificar os problemas, pois não podemos desconsiderar os equívocos coletivos, alguns dos quais se acumulam desde 1995, outros desde 2003.

8. A partir de 13 de junho de 2013, a quantidade converteu-se em qualidade, num processo de mobilização social que devemos analisar com o máximo de atenção. Cabe ao Partido, e também a nós, reunir o conjunto de informações e interpretações acerca do processo e elaborar uma síntese capaz de nos orientar melhor na luta política. De imediato, algumas variáveis já podem ser apontadas.

9. Em primeiro lugar, é preciso atentar para a heterogeneidade do processo. Não apenas a existência de múltiplos movimentos, setores sociais e políticos envolvidos, disputando e sendo disputados. Mas também a existência de etapas distintas no processo, cada qual com um sentido e hegemonia distintas. Está claro, por exemplo, que o movimento começou em torno da luta contra as tarifas do transporte urbano; cresceu como movimento de solidariedade contra a repressão policial; depois entrou numa terceira fase, onde a direita passou a disputar com força a condução do movimento; houve então uma reação do governo e das esquerdas, em torno principalmente da proposta de Plebiscito; nos próximos dias, estão convocadas várias mobilizações, desde o locaute convocado por setores da direita para o dia 1/7, até a mobilização das centrais sindicais nos dias 4 e 11/7. É fundamental, portanto, fazer análise concreta da situação concreta.

10. Em segundo lugar, é importante destacar a predominância da juventude. Cabe analisar melhor o perfil deste setor social que foi às ruas. E atentar para o fato de que a juventude, especialmente nas periferias, é alvo de uma pauta predominantemente negativa: violência do Estado, toque de recolher, redução da maioridade penal, com 30 mil jovens negros morrendo todo ano. Numa primeira aproximação, podemos dizer que, ao menos numa primeira etapa, foi às ruas uma juventude trabalhadora ou filha de trabalhadores, com idade média até 25 anos e formação predominante universitária, exatamente o setor social e geracional que nossas próprias pesquisas e análises indicavam estar ganhando distância frente ao PT. Aliás, chama a atenção que alguns que antes comemoravam a “entrada de milhões na classe média”, agora criticam as manifestações por estarem “compostas predominantemente por gente de classe média”: tanto a comemoração anterior quanto a ojeriza posterior incidem em erros, sociológicos e políticos (http://www.pt.org.br/noticias/view/artigo_marilena_e_a_turma_do_farol_por_valter_pomar). A verdade é que a intensa mobilização juvenil, de uma geração que nasceu depois da campanha das Diretas Já, quebrou dois mitos: o de que a juventude seria naturalmente de esquerda e progressista; e de que seria uma juventude alienada e desinteressada da política.

11. Em terceiro lugar, é necessário reconhecer o sentido em geral progressista das demandas e do processo (http://pagina13.org.br/2013/06/que-as-manifestacoes-nao-sejam-passageiras/). Ampliação dos direitos sociais e mudança no sistema político do país são bandeiras do PT, da esquerda, dos setores progressistas do Brasil. Tarifa zero, como educação e saúde públicas, não são plataforma da direita, do grande capital e dos setores conservadores, ainda que estes setores busquem apropriar-se oportunisticamente destas bandeiras, para tentar dirigir um movimento cujo conteúdo é no limite contraditório com seus interesses de classe. Como já apontaram muitos, o sentido das ruas está em contradição com o desejo dos mercados.

12. Em quarto lugar, é fundamental perceber que se trata de um movimento originalmente espontâneo. É curioso como dirigentes importantes da esquerda, oriundos eles mesmos de uma situação semelhante no final dos anos 1970 (“quanto novos personagens entram em cena”), tenham hoje dificuldade de reconhecer ou de aceitar que outros possam fazer o mesmo. Freud explica. Claro que em todo movimento espontâneo há incoerências e confusão, elementos organizados, disputa política, interferência da direita, momentos de fluxo e refluxo, desfechos incertos. Mas exatamente isto é um movimento espontâneo: a eclosão súbita de centenas de milhares de pessoas na rua, pessoas que passam a querer ter ação política, as vezes superando e atropelando até mesmo as ações e forças sociais organizadas, que por exemplo estiveram presentes desde o início no Movimento Passe Livre.

13. Em quinto lugar, é decisivo entender que sem um forte deslocamento da correlação de forças, seríamos derrotados, ou na eleição, ou na condução do governo. Derrota que em certa medida já vinha se dando, pois apesar da batalha dos juros, o governo não estava conseguindo manter o ritmo das mudanças, fazendo cada vez mais concessões ao grande capital e a setores da direita. E, graças à eclosão popular ocorrida desde 13 de junho, abriu-se a possibilidade de deslocar a correlação de forças para a esquerda.

14. Em sexto lugar, é prudente atentar que o desfecho está em aberto. O consórcio mídia-partidos de direita está disputando a consciência popular, as pautas da mobilização, o sentido geral do movimento. Querem converter um movimento de pressão por mais políticas públicas e mais democracia política, num movimento contra o PT e contra o governo. Ainda que com propósitos distintos, setores da oposição de esquerda têm o mesmo objetivo, acreditando que é possível ultrapassar o PT pela esquerda, embora os acontecimentos tenham demonstrado de novo que uma derrota do PT abriria caminho para a derrota de toda a esquerda. Neste sentido, saudamos e nos empenhamos nas diversas iniciativas de unidade democrática anti-fascista das diferentes forças da esquerda político-social. E alertamos para o fato de que setores da oposição de direita estão apostando na desestabilização da economia, inclusive recorrendo a locautes ("greve" articulada por empresários).

15. Todas estas variáveis apontam qual deve ser nosso caminho: disputar os rumos do processo, não contra ele, mas apoiando-se no ambiente de mobilização, para realizar mais mudanças sociais e políticas no Brasil, aprofundando o curso iniciado em 2003. Cabendo ter claro que disputar os rumos do processo não é igual a “disputar os movimentos sociais” que conhecemos e com os quais estamos habituados. E tendo claro, também, que o ambiente político no Brasil mudou: a direita brasileira resolveu adotar uma tática de desestabilização semelhante a adotada pela direita venezuelana, articulando mídia e oposição partidária, com disputa de rua. A tentativa de realizar uma greve geral via facebook, na verdade um locaute empresarial disfarçado, é outro exemplo disto.

16. A rigor, isto tampouco constitui novidade absoluta. No Chile de Allende, na já citada Venezuela, na Bolívia e noutros países, a direita também busca legitimar-se nas ruas. No Brasil dos anos 1960, a direita ocupou as ruas. E, nos últimos anos, a direita brasileira vinha ensaiando novamente esta tática, seja usando igrejas conservadoras, seja estimulando movimentos como o “Cansei”. Há pouco, tivemos as ondas de boato sobre o "apagão", a "inflação" e o "fim da bolsa família". Agora, tentam cavalgar um movimento social espontâneo. Utilizam para isto técnicas e tecnologias adotadas em outros países do mundo, mas também procedimentos tradicionais de ultra-direita, entre os quais a infiltração policial, mobilização de criminosos e lumpens, tropas de choque fascistas, preconceito religioso. Mas estas técnicas operam no movimento, não são responsáveis pela sua eclosão.

17. Também aqui, cabe a nós do PT fazer uma autocrítica. Nos anos 1980 e 1990, o petismo era o principal veículo da insatisfação com os problemas políticos e sociais brasileiros. Eram os tempos em que Lula fazia referência aos "300 picaretas" que dominavam o Congresso Nacional. A medida que fomos nos tornando parte da institucionalidade, reduzimos progressivamente aquela dimensão fundamental de nossa atividade. E, como já dissemos em 1993 no Manifesto A Hora da Verdade (http://pagina13.org.br/apresentacao/quem-somos/), o em si positivo crescimento institucional foi acompanhado da domesticação do Partido, com a adesão de crescentes setores do petismo à norteamericanização da política (dinheiro, mídia, marketing eleitoral). A crise de 2005 deve ser vista neste contexto, e nossas dificuldades em equacionar o tema ajudou a direita a ganhar amplos setores da população, para a tese segundo a qual o PT seria um partido “tão corrupto quanto os demais”. Para piorar, a domesticação e institucionalização do petismo foi acompanhada pela burocratização e esvaziamento não apenas do Partido, mas também de muitas organizações oriundas dos movimentos sociais. Abriu-se, especialmente na juventude, um vácuo que tampouco foi ocupado pela esquerda não-petista. É neste espaço que os diferentes setores da oposição de direita buscam operar.

18. Ou recuperamos nossa capacidade de vocalizar a indignação “com tudo que está aí”, abandonando a incorreta ideia de que ser governo nos impediria de tomar esta atitude, ou no médio prazo poderemos ser varridos. Isto que é chamado de sentimento "antipolítico", deve servir de base para a defesa de outro tipo de política, portanto contra a política e os políticos conservadores, tradicionais, de direita. O sentimento expresso na frase "não me representa", deve levar a esquerda política e social a abrir nossas organizações à nova militância surgida neste processo; e adotar uma nova dinâmica de funcionamento, vinculada às bases sociais, presentes no cotidiano do povo, participando do debate cultural e ideológico, recuperando o sentimento crítico e a radicalidade programática.

19. Fazer isto implica, também, em combater os sinais de preconceito geracional presentes em algumas análises feitas, por setores da esquerda, acerca da mobilização iniciada dia 13 de junho.

20. Há muitas experiências históricas mostrando o que acontece com uma esquerda que pretende viver de glórias passadas. Lembramos que aquilo que constitui “conquista” para uma geração, é “parte da paisagem” para as gerações seguintes. E será assim, especialmente quando as gerações anteriores se burocratizam e, ao mesmo tempo, se demonstram incapazes de garantir comunicação de massas, educação pública e formação político-ideológica para as novas gerações.

21. Grande parte dos que foram às ruas a partir de 13 de junho são produto do país que nós ajudamos a construir. Que as manifestações tenham sido por mais direitos, e não contra o corte deles, nem por salários e empregos, é um sinal disto. Mas cabe lembrar: este é um país profundamente desigual e contraditório, em que o neoliberalismo continua ideológica e economicamente hegemônico, ao passo que a esquerda parece ser politicamente hegemônica. Esta contradição, quase um paradoxo, está na base de grande parte de nossos problemas, e a política de coalizão com a centro-direita adotada pelo Partido amplia a dificuldade, pois parece aos olhos da juventude e de outros setores que somos apenas e tão somente parte integrante do sistema. Duas fotografias simbolizam os equívocos decorrentes da indiferenciação: a imagem de Fernando Haddad com Paulo Maluf, durante a campanha eleitoral de 2012;e a fotografia do prefeito com o governador Geraldo Alckmin, no anúncio da redução das tarifas.

22. A análise de que foi às ruas a “geração facebook”, reforçada pelas palavras-de-ordem múltiplas ao estilo dos posts dos murais do face, tem um pouco de verdade. Mas é bom lembrar que as organizações tradicionais da esquerda também tem apresentado pautas reivindicatórias pulverizadas. Por outro lado, não devemos superestimar o papel das redes: sem o impacto da grande mídia tradicional, especialmente das televisões, as mobilizações não teriam a mesma força. Seja como for, é ótimo que os jovens tenham saído às ruas, superando as limitações inclusive físicas das redes sociais virtuais. Este é um processo pedagógico, para eles e para todos, para os que foram às ruas e para os que não foram. Além de estimular certa esquerda acomodada a movimentar-se, nem que seja por auto-defesa; além de proporcionar uma reflexão muito útil sobre os riscos de certa retórica nacionalista e de certa crítica rasa aos partidos, ambas atitudes presentes em setores da própria esquerda organizada.

23. A pedagogia do processo inclui aprender a neutralizar o vandalismo lumpen e combater a presença do crime organizado. É preciso, também, aprender a lidar com a atitude de grupos radicalizados como os anarcopunks. Ao mesmo tempo, é crucial impedir que o movimento seja capturado pela direita. Por isto, é importante identificar e derrotar os setores neofascistas, skinheads e grupos paramilitares de direita e, principalmente, impedir que o movimento seja capturado pela pauta da direita. Sem incorrer no erro e na pretensão de tutelar o movimento, para atingir estes objetivos, cumprem papel fundamental as organizações tradicionais da classe trabalhadora, o papel da velha guarda, da esquerda organizada, da militância com experiência em lutas anteriores. Sobre isto, com todos os cuidados que a situação exige, nossa posição é clara: as ruas são de todos e delas não seremos expulsos pelos herdeiros dos galinhas verdes.

24. Tampouco aceitamos a criminalização dos movimentos sociais e a violenta repressão desencadeada pela Polícia Militar, sob ordem de governos tucanos e de direita. E alertamos que algumas atitudes posteriores da Polícia --como a de adotar uma atitude "passiva" e de "reação tardia" frente ao vandalismo-- parecem estar a serviço de criar um clima de medo e desgoverno, para justificar e legitimar o posterior chamamento às "forças da ordem".

25. É bom dizer que a geração que foi às ruas na primeira etapa do movimento, basicamente gente com sensibilidade de esquerda, foi surpreendida pela atitude de algumas autoridades filiadas ao PT. Estas atitudes desencontradas contribuíram muito para confundir, aos olhos de setores da população, as nossas posições com as posições do tucanato. Imaginemos: qual teria sido o curso dos acontecimentos, caso Fernando Haddad tivesse, desde o primeiro dia, suspendido o aumento das passagens na cidade de São Paulo? Ou caso o ministro Cardozo tivesse criticado a violência policial desde o primeiro dia? Ou ainda se o conjunto do PT tivesse reconhecido que a tarifa zero obedece a mesma inspiração da saúde e da educação públicas, a saber, diferentes maneiras de garantir um direito social? Neste sentido, saudamos a atitude legitimamente petista de militantes, instâncias, parlamentares e autoridades executivas ligadas ao PT, que souberam compreender o recado das ruas e com elas interagiram adequadamente.

26. Entretanto, o conjunto dos acontecimentos de Junho confirmou que uma parte da esquerda brasileira converteu-se à tecnocracia, tratando o povo como “paciente”. Paciente no sentido de ser “objeto” e não sujeito dos processos. E “paciente” no sentido de ter “paciência”.

27. Para os que adotam esta postura tecnocrática, é muito difícil compreender o papel que a luta social pode jogar na transformação social. As condições históricas levaram o setor majoritário da esquerda brasileira, especialmente o PT, a lutar por ser governo, nos marcos da ordem capitalista e de um Estado conservador. Exatamente por isto, esta esquerda não pode diluir-se nas instituições e tornar-se defensora do status quo; ao contrário, deve preservar sua vocação anti-sistêmica, democrático-popular e socialista, para fazer de sua presença no Estado a contra-mola que resiste, altera e transforma.

28. No caso concreto, as mobilizações em curso podem nos ajudar a defender a ampliação dos direitos sociais, contra a ortodoxia fiscal. Ajudar a fazer a reforma política, contra o conservadorismo do atual parlamento brasileiro. Ajudar a colocar as reformas estruturais na pauta política do país. Aliás, um dos saldos deste processo é nos lembrar, a todos, que a correlação de forças e a agenda política do país podem ser alteradas, e que a luta de massas tem esta capacidade.

29. Como já se convencionou dizer, é hora de fazer do limão, limonada. Partir do quadro atual, para aprofundar as mudanças e fazer a reforma política. Aliás, é bom reafirmar: sem reforma política e democratização da comunicação, não terá futuro a estratégia defendida pelo PT. Posto de outra maneira, não há como prosseguir mudando o país, sem alterar as instituições estatais brasileiras. E não há como fazer esta alteração apenas de dentro para fora: é preciso que a pressão social entre em cena. Infelizmente, apesar dos esforços das organizações populares, a pressão recente não surgiu por nossa iniciativa; mas felizmente surgiu. Por isto, consideramos que foi absolutamente correto reconhecer a legitimidade das mobilizações e de suas demandas, assim como apontar o Plebiscito e a Constituinte como caminhos para tradução institucional da pressão social. Mas também por isso, consideramos essencial colocar em movimento a classe trabalhadora: é isto e a ação articulada de nossas organizações que pode derrotar a movimentação da direita.

30. Claro que a direita repudia a Constituinte e o Plebiscito. Confirmando o divórcio entre capitalismo e democracia, temem que a pressão das ruas produza uma reforma política que lhes tire poder. A isso respondemos: todo o poder ao povo, viva a soberania popular e a democracia. Claro, também, que a direita pretende direcionar a insatisfação social em direção aos partidos de esquerda, especialmente ao PT. A direita pode fazê-lo, pois os partidos são para ela parte totalmente secundária de seus aparatos de poder (entre os quais destacam-se o oligopólio da mídia, mas também suas casamatas incrustadas dentro do aparato do Estado). Nossa resposta deve ser defender uma política e partidos de novo tipo. Ou seja: não os partidos em geral, não a política em geral, mas a política e os partidos vinculados aos interesses da maioria do povo. Claro, ainda, que a direita busca manipular o movimento contra o governo Dilma. A isto respondemos fazendo a defesa e fortalecendo nosso governo, a começar pela presidenta Dilma, que nesta crise mostrou capacidade de reação, liderança e faro político.

31. Da mesma forma, devemos defender e reafirmar nosso passado e os êxitos de nossos governos, defender nossa ação presente, mas reconhecendo as contradições, equívocos e debilidades. Mas devemos sobretudo dar ênfase ao futuro, ao Brasil que queremos. E apontar com clareza qual a base de nossas dificuldades: o capital financeiro, as transnacionais, o agronegócio, o latifúndio tradicional, o oligopólio da mídia, o controle de setores privados sobre largos setores do aparato de Estado, a mercantilização da política. Motivo pelo qual é mais atual que nunca a pauta das grandes reformas estruturais, como as reformas tributária, agrária e urbana, a democratização da mídia e da política, a ampliação das políticas públicas e do papel do Estado.

32. Na mesma linha, cabe-nos rearticular nosso bloco político-social: governos, movimentos, partidos, intelectualidade, bases sociais e eleitorais. O Partido dos Trabalhadores, em especial, deve repactuar suas relações com os movimentos sociais e com as bases populares. Isto inclui, por exemplo, realizar plenárias – setoriais, municipais, estaduais e nacionais – dos militantes petistas que atuam nos movimentos sociais. E reorganizar, em novas bases, algo como foi o “fórum nacional de lutas”, articulando partidos e movimentos sociais do campo popular. Mas inclui principalmente tratar de outra forma temas variados, que estão na origem de conflitos no seio das forças populares: as demandas da CUT, os leilões do petróleo, a reforma agrária, o fator previdenciário, o respeito aos indígenas, a defesa das causas LGBT, as politicas de gênero, os gastos da Copa, a política de transporte urbano, o controle do ministério das Cidades pela direita, alianças intragáveis etc.

33. Cabe, ainda, fazer o Partido funcionar como Partido e ser capaz de reagir na velocidade que a luta política está impondo. Nesta crise, como em tantas outras, confirmou-se que atuamos muitas vezes como “partido de retaguarda”, que sabe operar predominantemente nos anos pares.

34. Como parte da disputa das ruas, o PT deve participar organizadamente das atividades convocadas pela Central Única dos Trabalhadores dia 4 de julho; e também das atividades convocadas pelo conjunto das centrais, no dia 11 de julho. Nossa ênfase deve ser na defesa da pauta da CUT: contra o PL 4330, da “terceirização” que retira direitos dos trabalhadores brasileiros e precariza ainda mais as relações de trabalho no Brasil; que as reduções de tarifa do transporte não sejam acompanhadas de qualquer corte dos gastos sociais; 10% do orçamento da União para a saúde pública; 10% do PIB para a educação pública, “verbas públicas só para o setor público”; fim do fator previdenciário; Redução da Jornada de Trabalho para 40 horas sem redução de salários; Reforma Agrária; suspensão dos Leilões de Petróleo. Também defenderemos o Plebiscito proposto pela presidenta Dilma, a reforma política, a democratização da comunicação e a Assembleia Constituinte.

35. A disputa das ruas começa já nas telas de TV. O governo brasileiro está convocado a alterar imediatamente sua política de comunicação. O atual ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, foi capaz de imputar à militância petista uma posição que não é a nossa (a censura), além de nos atacar covardemente nas páginas da pior revista do país, não está vocacionado para cumprir esta tarefa. O ministério deve ser encabeçado por alguém comprometido com a democratização da comunicação social.

36. A disputa das ruas começa, também, alterando a política de comunicação do Partido. Constituir uma redação de conteúdos capaz de alimentar nossos boletins, páginas eletrônicas, programas de rádio, entrevistas e discursos em todo o país. E reconstruir nossas redes sociais, principalmente apoiando a atuação organizada de nossa militância nessa frente de luta política e ideológica.

37. O centro da tática é, neste momento, disputar e vencer o plebiscito. O que exigirá uma forte aliança política e social, que já está se conformando, entre todos os favoráveis à reforma. Ao Partido caberá de imediato, entre outras tarefas, a de contribuir no essencial debate sobre quais serão as perguntas feitas à população. Proposto para 7 de setembro, o plebiscito pode criar as condições institucionais necessárias não apenas para reeleger Dilma, mas para fazê-lo de forma a que o segundo mandato seja superior ao primeiro.

38. Para vencer o plebiscito, é fundamental que haja condições democráticas, o que começa por definir regras claras, horário eleitoral de rádio e TV, limites ao financiamento das diferentes posições, democracia nos meios de comunicação.

39. Também é fundamental a definição de quais temas devem ser objeto de debate e votação, no Plebiscito. De saída é importante que o conteúdo e a redação das perguntas dialogue com o sentimento popular, de negação da atual maneira de fazer política. Por isto, tão importante quanto as alternativas de sistema eleitoral (voto distrital, em lista ou distrital misto) e a fidelidade partidária, são temas como a introdução de instrumentos de democracia direta, extirpar a fonte de corrupção que é o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, garantir a proporcionalidade na eleição de parlamentares, a paridade de gênero na composição das bancadas, o fim do Senado com a introdução do unicameralismo etc.

40. E, com destaque, a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, bandeira correta, aprovada e reafirmada pelo Partido, a única compatível com a necessidade de alterar de conjunto e democraticamente a institucionalidade brasileira. A esse respeito, o governo deveria ter mantido a proposta combinada de Plebiscito e Constituinte "específica", para fazer a reforma política.

41. É nestes marcos de intensa luta política e social que ocorrerá o processo de eleição das direções partidárias, o chamado PED. Trata-se de uma coincidência feliz, pois permitirá à militância construir, através do debate, uma nova estratégia para um novo período, de maiores conflitos políticos e sociais, cuja solução positiva exige a realização de reformas estruturais. Um cenário adequado, também, para que o Partido reveja de alto a baixo sua organização, reconstruindo suas instâncias e organismos de base, revendo seus métodos de funcionamento e ação, e principalmente adotando uma nova estratégia, elegendo uma direção que seja capaz não apenas de reconhecer os novos tempos, mas também – e principalmente – capaz de agir em conformidade com isto.

42. Vivemos novos tempos, apesar dos perigos. As próximas semanas podem confirmar o potencial mudancista do processo, ou podem resultar numa reversão conservadora, como é o sonho daqueles que comemoram os resultados de recentes pesquisas de opinião. Cabe a cada um de nós, militantes de esquerda, sustentar as bandeiras vermelhas da esperança e do socialismo.

* A direção nacional da Articulação de Esquerda, tendência do Partido dos Trabalhadores - 30 de junho de 2013