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terça-feira, 27 de maio de 2014

O pavor dos abastados: a desigualdade e a taxação das riquezas...




 “a desigualdade não é acidental, mas o traço
   característico do capitalismo”

Por Leonardo Boff, em seu blog
Está causando furor entre os leitores de assuntos econômicos, economistas e principalmente pânico entre os muito ricos um livro de 700 páginas escrito em 2013 e publicado em muitos países em 2014. Transformou-se num verdadeiro best-seller. Trata-se de uma obra de investigação, cobrindo 250 anos, de um dos mais jovens (43 anos) e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula O capital no século XXI(Seuil, Paris 2013). Aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e principalmente pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os EUA.
A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persisitir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Desde 1960, o comparecimento dos eleitores nos EUA diminuiu de 64% (1960) para pouco mais de 50% (1996), embora tenha aumentado ultimamente. Tal fato deixa perceceber que é uma democracia mais formal que real.
Esta tese sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de farça. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites privilegiadas, a subordinação de grupos, a corrupção, fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade.
Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desiguldade Richard Wilkinson. Nos EUA, executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. Eric Hobsbown, numa de suas últimas intervenções antes de sua morte, diz claramente que a economia política ocidental do neoliberalismo “subordinou propositalmenet o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inequalitário”.
Em termos globais, citemos o corajoso documento da Oxfam intermón, enviado aos opulentos empresários e banqueiros reunidos em Davos nos janeiro deste ano como conclusão de seu “Relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e Desigualdade econômica”: 85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bihões de pobres do mundo.
O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam os grandes geradores de emprego.
Os prêmios Nobel, J. Stiglitz e P. Krugman têm mostrado que o dinheiro que receberam do Governo para salvarem seus bancos e empresas mal foram empregados na geração de empregos. Entraram logo na ciranda financeira mundial que rende sempre muito mais sem precisar trabalhar. E ainda há 21 trilhões de dólares nos paraísos fiscais de 91 mil pessoas.
Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de real democracia quando se revelam estas excrecências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de co-semelhantes?
Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann (veja também Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil, Cortez, 2004): 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da financeirização, portanto, ganham através da especulação. Continua Poschmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%”(Le Monde Diplomatique, outubro 2007).
Segundo dados de organismos econômicos da ONU de 2005, o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo. Mas graças às políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade que continua enorme, caiu 17%.
Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza, até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbown: “O objetivo da economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”.
E como um gran finale a frase de Robert F. Kennedy:”o PIB inclui tudo; exceto o que faz a vida valer a pena.”


domingo, 25 de maio de 2014

REUNIDOS EM ASSEMBLÉIA NA PRAÇA E EM AUDIÊNCIA PÚBLICA NA ALESP, OFICIAIS DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO SINALIZAM COM O ENDURECIMENTO NAS NEGOCIAÇÕES COM A CÚPULA DO TJSP







No último dia 21 de Maio estiveram reunidos na Praça João Mendes- Capital , em Assembléia Geral convocada pela base, cerca de 250 Oficiais de Justiça de todo o estado. Presentes representantes da Baixada Santista (Santos, São Vicente, Praia Grande e Cubatão), do Interior (Ribeirão Preto, Araraquara, Itu e Ituverava), Osasco, Carapicuíba, Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Campo Limpo Paulista e da maioria dos prédios da Capital.

Foram discutidos e aprovados  itens de pauta específica da função a saber – aprovação imediata do PLC 56/2013, que institui a exigência de Nível Superior para o ingresso na carreira ; alterações nas Normas de Serviço da Corregedoria Geral de Justiça, em específico o provimento 34 / 2012, que conseguiu aumentar ainda mais as dificuldades que os Oficiais de Justiça já enfrentavam na concretização das ordens judiciais ; atualização dos valores depositados pelas partes para a realização de diligências de seu interesse posto que a tabela específica  está congelada há anos, não obstante os inúmeros reajustes nos combustíveis e itens de manutenção dos veículos e enfim a aprovação imediata do PLC 30 de 2013, que repõe parte da defasagem salarial acumulada nos últimos anos, no patamar de 10,55%.

Após as discussões de praxe, deliberou-se pela decretação de estado de greve por tempo indeterminado, até o atendimento pleno das reivindicações.

Entendemos ser este o primeiro passo efetivo da categoria dos Judiciários rumo  à concretização de seus anseios relativos à Campanha Salarial 2014, até agora ignorados pela cúpula do TJSP.

Ato contínuo encaminharam-se todos os presentes à audiência pública realizada na ALESP por conta de requerimento nesse sentido encaminhado à casa pelo deputado estadual Carlos Giannazi, evento que recebeu no próprio local manifestações de apoio de diversos parlamentares tais como os deputados Ed Thomas, Itamar Borges, Sara Munhoz e outros.




A mesa foi composta pelo próprio Giannazi, além  das colegas Catarina ( baixada santista ), Sonia ( Ribeirão Preto ) e Luiz Milito ( capital ).

1. pelo deputado Giannazi foi reafirmado que a própria ALESP, que já aprovou em todas as suas instâncias o projeto de Lei 56 / 2013, poderá buscar recursos a quem de direito para a implementação do Nível Superior aos Oficiais de Justiça, tão logo seja o mesmo colocado em pauta ;


2. o companheiro Luiz Milito reforçou a necessidade do exercício de pressão da categoria sobre os parlamentares, os quais deverão ser procurados pelos próprios colegas em suas regiões, lembrando ainda que este é um ano eleitoral , momento em que os mesmos costumam estar mais dispostos a acolher reivindicações   de caráter específico ;


3. o Oficial de Justiça José Luiz, de Itu, explanou sobre o abaixo-assinado a ser encaminhado ao Ministério Público do Trabalho afim de que o mesmo passe a averiguar a atuação do SINDOJUS-SP, entidade pseudo-sindical que se apresenta como legítima representante dos Oficiais de Justiça que , novamente , sequer se fez presente à assembléia realizada pela base de seus “representados”. Tal documento foi subscrito por TODOS  os presentes e será encaminhado à apreciação da Justiça muito em breve, com vistas inclusive à prestação de contas a ser exigida do mencionado agrupamento  mercê dos descontos do Imposto Sindical efetivados em 2013 e 2014 nos contra-cheques dos Oficiais ;

4. a colega Catarina reiterou que a ALESP não é de fato o palco dos trabalhadores, mas sim a própria praça. Reforçou o levantamento que aponta que cercade de 85% dos Oficiais de Justiça já contam com o Nível Superior em seu currículo, não raro com duas ou mais faculdades, sabendo-se ainda que apenas os estados de São Paulo e Minas Gerais não o exigem nos concursos públicos para a função. Lembrou ainda que os colegas de Minas já se encontram  em estado de greve pelo mesmo motivo ;

5.  a colega Sonia falou sobre a necessidade de união de todos os envolvidos na divulgação da atual situação e sugeriu a confecção de bottons e camisetas anunciando o momento atual, a serem utilizados diariamente em serviço ;

6.  José Gozze, da ASSETJ, parabenizou os presentes e enfatizou a necessidade de se buscar apoio entre os deputados em suas próprias regiões de origem, tendo lembrado aos presentes que os colegas da esfera federal têm salários quase três vezes superiores aos nossos ;

7. o companheiro ALEXANDRE, da ASSOJUBS, falou sobre a situação de fato dos poderes Legislativo e Judiciário deste estado , que têm historicamente se apequenado, aceitando reduzir-se à condição de meras secretarias de estado a serviço do Executivo, este último comandado de forma ditatorial pelo mesmo partido há lamentáveis 20 anos. Falou também sobre a aberração jurídica que se constitui a publicação e implantação das regras contidas no COMUNICADO SPI nº 16 / 2014 que dispõe sobre a realização das citações sem cópia da inicial, peça essencial que deverá ser buscada pela parte interessada através de uma senha junto ao portal eletrônico do TJSP, em total desrespeito à normatização instituída no Código de Processo Civil vigente ;

8. o companheiro Maurício, da AFFOCOS, enfatizou a necessidade de cada um dos presentes procurar e requerer apoio ao deputado de sua região ;

9. Marcos, da APATEJ, falou sobre a eterna demagogia do discurso oficial sobre a tal “valorização dos serventuários da justiça” , palavras bonitas mas totalmente despidas de efeitos objetivos ;

10. o companheiro Alemão, da ASSOJURIS, reforçou que sua entidade está à disposição com apoio logístico e material para a  atuação dos Oficiais de Justiça em busca de suas demandas, o que também fizeram em momento anterior os representes da ASSETJ, ASSOJUBS, APATEJ e AFFOCOS, além da AOJESP. Falou também que os números compilados pelo próprio Diário Oficial e outros meios de pesquisa apontam que  o TJSP dispõe sim,  dinheiro em caixa, mas que possui prioridades diversas e obscuras,  dissociadas das que beneficiam de fato seus servidores. Os próprios deputados que apoiam nossas iniciativas já haviam falado a respeito, colocando em dúvida o discurso adotado pela atual presidência do tribunal ;

11. Ivone, da AOJESP, lembrou da greve deflagrada apenas pelos Oficiais de Justiça no ano de 1986 e que resultou na implantação da gratificação de 150% sobre os salários de então. Falou também que a implantação do sistema informatizado nos judiciários estaduais não diminui a importância das atividades extra-judiciais exercidas pelos Oficiais de Justiça , as quais se realizam nas ruas , junto ao jurisdicionado, e informou que se socorrerá das federações de Oficiais de Justiça pelo Brasil em defesa de seus direitos. Solicitou ainda um minuto de silêncio por conta do assassinato da colega Sandra, ocorrido em função do cumprimento de ordem judicial de apreensão e amplamente divulgado por toda a mídia ano passado. Encerrou denunciando que há 20 anos o TJSP desvia dinheiro destinado e depositado aos Oficiais de Justiça para o Fundo Especial de Despesas do Tribunal, tendo relatado que em 2008 os valores acumulados já seriam da ordem de 54 milhões de reais ;

12. o Oficial MARIO RICARDO, de Itu, sugeriu como meio de pressão e manutenção da atual mobilização o envio sistemático de e.mails aos endereços institucionais dos deputados, de modo mesmo a inviabilizar sua utilização mercê do elevado número de postagens solicitando apoio e votação imediata do PLC 56 ;

13. a colega Raquel, de Ribeirão Preto, sugeriu 1 dia para a efetivação de contato direto com os parlamentares na própria ALESP, em busca do apoio efetivo de todas as lideranças partidárias ;

14. a colega AGLAYS, da capital, falou sobre  a  preocupação em relação ao incremento da atual mobilização de forma a que atinja toda a categoria dos judiciários e que a próxima assembléia seja convocada para todos, não somente os Oficiais de Justiça. Discorreu que é preciso que todos os serventuários entendam a aprovação do PLC 56 como porta de entrada para que tal condição venha a ser exigida para o ingresso nas demais funções da casa ; denunciou a pretensão do sistema em terceirizar as funções dos Oficiais de Justiça, tendo sugerido a todos a leitura do Documento 319 do Banco Mundial para as magistraturas, facilmente localizado na internet. Falou enfim sobre a necessidade de uma campanha direta e aberta contra o PSDB e suas políticas de precarização dos serviços públicos em todas as regiões que comandam no país ;

15. a colega Denise, de Santos, explanou sobre a ditadura tucana implantada há duas décadas no estado de São Paulo e a forma subreptícia com que o seu partido e  apoiadores têm conduzido as políticas públicas em São Paulo, particularmente em relação à educação, a saúde e a segurança - todas obrigações constitucionais de estado. Falou enfim sobre o saldo positivo da criação das Centrais de Mandados, que aproximaram os Oficiais de Justiça de uma maneira inédita, inferindo que o TJSP possa ter atingido o próprio pé com sua implantação.

Encerrada a audiência pública , entendemos por coerentes e altamente positivas as discussões que se travaram durante mais de seis horas reunidos. 

Nós do SINTRAJUS entendemos também que a aprovação do PLC 56 / 2013 dará um grande impulso às conquistas das demais funções que compõem os quadros do Tribunal de Justiça e que este é o momento acertado para nos unirmos a esta e demais reivindicações dos judiciários do estado de São Paulo. 

Lamentamos  mas não estranhamos em absoluto o fato de que os tais “sindicatos” que afirmam nos representar sequer tenham comparecido à praça ou à ALESP, e muito menos divulgado a movimentação em seus sites, particularmente o "sindicato" dos Oficias de Justiça.

Enfatizamos que TODOS  os SINDICATOS REGIONAIS  fundados a partir da greve de 2010 , movimento paredista que não contou com o apoio dos dois agrupamentos-fantasmas  que entendemos  a serviço dos patrões , estiveram presentes e unidos em torno das reivindicações dos servidores judiciários deste estado. 

De se notar  também que  todas a associações  se fizeram presentes e apoiaram os manifestantes de forma objetiva e direta.

Que tal lamentável fato , que se repete reiteradamente,  sirva de ALERTA  a todos os servidores do Tribunal de Justiça de São Paulo.






Veja abaixo mais fotos do movimento


Créditos CAMILA MARQUES / ASSOJUBS


















Na América Latina, a direita procura inventar um discurso social





A Colômbia elege no fim de maio um novo mandatário. Um candidato próximo ao ex-presidente Álvaro Uribe enfrentará o atual chefe de Estado, Juan Manuel Santos. A ruptura entre os dois, antigos aliados, reflete uma outra, maior, no seio da direita latino-americana que tateia para tentar reverter o domínio regional

por Grace Livingstone      

 
Não há partidos conservadores no Brasil”, lamentava-se recentemente a revista Veja1 num artigo intitulado “O incrível caso do país sem direita” (3 abr. 2011). Diante de um Partido dos Trabalhadores (PT) que tirou da pobreza 40 milhões de pessoas desde 2003, nenhuma das 27 formações oficiais ousa se identificar como sendo “de direita”. Mesmo os mais reacionários adotaram apelações com consonância progressista, como o Democratas. Em toda a América Latina, as formações conservadoras, dominantes ao longo dos anos 1990, conheceram uma travessia do deserto. Os resultados de diversas eleições de um ano eleitoral intenso levantam um questionamento: a direita latino-americana teria desaparecido?
Claro, ela conserva certos bastiões, como a Colômbia e o Panamá, dois países que, juntamente com o México, não parecem ter sido tocados pela “onda vermelha”.2 Mas, das sete eleições presidenciais de 2014, cinco provavelmente verão uma vitória da esquerda ou da centro-esquerda: em El Salvador, a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), surgida da guerrilha, ganhou em março; na Costa Rica, o Partido de Ação Cidadã chegou ao poder em abril; e, a menos que haja alguma surpresa, esse cenário deverá se repetir na Bolívia, no Uruguai e no Brasil em outubro.
Os neoliberais continuam sendo responsabilizados pela violência social das políticas de ajuste estrutural. Entre 1980 e 2004, o número de pessoas vivendo dentro dos limites de pobreza aumentou de 120 milhões para mais de 210 milhões: as populações não esquecem. Muitos dirigentes conservadores continuam sendo, inclusive, associados às ditaduras militares dos anos 1970 e 1980: no Chile, por exemplo, a candidata da direita às eleições presidenciais de dezembro de 2013, Evelyn Matthei, era filha de um general ligado a Augusto Pinochet. A erosão da influência econômica dos Estados Unidos fragiliza um pouco mais as formações tradicionalmente próximas de Washington, à imagem da criação de organizações de integração regional que excluem os Estados Unidos (como a União de Nações Sul-Americanas, Unasul).
 
Conservadores “complexados”

A principal dificuldade que encontram as forças políticas conservadoras se resume assim: como definir um projeto político mais sedutor que as políticas populares dos governos de esquerda? Do Brasil à Venezuela, do Equador à Bolívia, da Argentina à Nicarágua, estes últimos orientaram uma parte do crescimento econômico para importantes programas sociais. Os partidos de direita tentaram então adaptar seu discurso, comprometendo-se inclusive, como o candidato principal da oposição brasileira, Aécio Neves, “a continuar e melhorar” as medidas em andamento. O dirigente da frente de oposição venezuelana que se apresenta como “moderada”, Henrique Capriles, esforça-se agora para parecer mais social do que os partidários de Hugo Chávez. Ele acusa, por exemplo, o sucessor do ex-presidente, Nicolas Maduro, de ter se “emburguesado” e garante “encarnar as aspirações dos mais pobres”.3 Claro, os programas de Neves e Capriles propõem tornar os serviços públicos mais “eficientes” graças a privatizações; mas o tom permanece adocicado. Depois de resultados ruins nas eleições municipais de dezembro passado, a oposição venezuelana conheceu o aumento do poder dos dirigentes mais radicais, que tentam derrubar o presidente eleito pelas manifestações de rua ou utilizando métodos violentos – uma estratégia conhecida como “salida”.
O mundo dos negócios conseguiu por vezes encontrar um modus vivendicom os governos de esquerda, agravando ainda mais a situação de uma direita privada de seus mais importantes apoios e provocando uma ruptura entre as elites econômicas e políticas. Na correria de sua tomada de posse do governo, Evo Morales, sindicalista indígena que se tornou presidente da Bolívia, teve de enfrentar uma revolta dos poderosos proprietários de terra que controlam as vastas plantações de soja e girassol nas planícies de Santa Cruz. Mas a oposição dos gigantes do agronegócio foi interrompida quando descobriram que, a despeito de uma retórica radical, o governo de Morales equilibrava seus orçamentos e oferecia reduções fiscais aos exportadores agrícolas. Além do mais, ele não realizou uma reforma agrária nas planícies orientais, contentando-se em expropriar as grandes fazendas improdutivas nas regiões do norte. Resultado: a direita boliviana parece estar à deriva e não espera conseguir mais do que um terço dos votos na eleição presidencial de outubro de 2014.
Mesma situação no Peru, onde a promoção do extrativismo mineral e as políticas fiscais neoliberais do presidente Ollanta Humala encantaram a poderosa elite comercial vinculada à exploração do ouro, do cobre, do carvão e do minério de ferro.4 Também no Equador o economista de esquerda Rafael Correa, eleito em 2006, conseguiu conservar o apoio das classes médias garantindo a estabilidade política, o crescimento econômico e desenvolvendo as infraestruturas, assim como realizando políticas conservadoras em matéria orçamentária.
A política brasileira repousava antes sobre os caciques regionais que reinavam no topo de um sistema clientelista que controlava o setor privado local, a terra e as mídias. Mesmo que não tenham desaparecido de todo, o PT conseguiu conquistar alguns importantes bastiões no Norte e no Nordeste do país, antigamente dominados pela direita. E isso em grande parte graças a seus programas sociais. Mas a elite econômica brasileira não tem do que reclamar. Aumento do nível de vida geral, crescimento do consumo, consolidação de um mercado interno amplamente abastecido pelas empresas nacionais: ao longo dos anos 2000, 42 milhões de brasileiros abriram uma conta no banco pela primeira vez; 15 milhões descobriram a viagem de avião. Essas transformações não fragilizam em nada, no entanto, a estrutura social do país, que está entre as mais desiguais do mundo. A dependência do PT do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, um partido que compreende poderosos membros do agronegócio) no Parlamento limita sua margem de manobra.
Diante do sucesso petista, Neves tem dificuldade em definir sua estratégia. Ele representa o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), uma formação identificada com a classe média, nascida de sua oposição à ditadura, mas rapidamente convertida ao neoliberalismo. A diferença principal entre o PT e o PSDB reside finalmente nas orientações de sua política externa. O PSDB denuncia a aliança estratégica com Caracas, assim como a escolha de constituir um bloco regional autônomo, principalmente por meio da Unasul.
Ainda que Dilma Rousseff (PT) figure na frente das pesquisas, a diminuição do crescimento e as manifestações de junho de 2013, que exigiam, entre outras coisas, a melhoria dos serviços públicos5 – e menos despesas ligadas à Copa do Mundo de Futebol e aos Jogos Olímpicos de 2016 –, podem favorecer Neves, o que deixa em evidência uma das fraquezas do modelo de esquerda latino-americano: ele repousa sobre um ganho de crescimento ligado à elevação do custo das matérias-primas, mais do que sobre uma diversificação econômica ou sobre reformas estruturais que possam ameaçar os poderosos. Claro, essas experiências provaram que uma vontade política real permitia que as condições de vida da população fossem melhoradas: lição importante para uma Europa enfraquecida pela austeridade. Mas elas também mostraram os limites de uma estratégia submissa às flutuações mundiais do preço das matérias-primas.
O modelo que consiste em combinar economia liberal e programas sociais parece já estar perdendo fôlego no Chile. Imaginado pela Concertación, uma coalizão de centro-esquerda no poder de 1990 (início da transição democrática) a 2010, a receita não foi fundamentalmente modificada pelo presidente que saiu, o bilionário Sebastián Piñera. E ele ainda teve de enfrentar um duplo entrave: o dos estudantes, que denunciavam a privatização da educação, e o da “velha direita”, decepcionada com sua falta de audácia. Ministro das Finanças do general Pinochet, Hernán Büchi reclamou da alta dos impostos, dos entraves aos investimentos “sob pretexto de proteção ao meio ambiente” e da manutenção “de proteções sociais para os trabalhadores que atentam contra a liberdade das pessoas”. Antes de concluir: “Nada nos obriga a nos comportarmos como uma direita complexada”.6
 
Pragmatismo e flexibilidade

Engajamento em favor da gratuidade da universidade (disposta inclusive a taxar as grandes empresas para financiá-la), reforma da Constituição herdada da ditadura: o segundo mandato da socialista Michelle Bachelet, eleita em dezembro de 2013, promete ser mais à esquerda do que o primeiro (2006-2010). Depois dos magros resultados da direita nas últimas eleições – quando Evelyn Matthei obteve apenas 38% dos votos –, as duas principais formações de direita conheceram diversas deserções. Alguns evocam a formação de um novo partido, de centro-direita, em torno de Piñera. Mas as políticas de Bachelet poderiam também unir a direita, provocando ao mesmo tempo a ira dos nostálgicos de Pinochet e dos neoliberais.
Apresentam-se frequentemente o Chile e o Brasil como as faces “moderadas” da esquerda latino-americana, com o segundo desempenhando um papel geopolítico importante: ele reforçou as organizações regionais e orientou a geopolítica continental à esquerda, tendo como efeito colateral, no entanto, o fato de contribuir para a homogeneização de algumas tomadas de posição ao forçar para que se encontrem terrenos de entendimento no seio dessas estruturas. Olivier Dabène, professor da universidade francesa Sciences Po, ressaltava em 2012 que a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) era pilotada por uma troika constituída de três países: o que exerce a presidência, seu predecessor e seu sucessor – na época, a Venezuela de Chávez, o Chile de Piñera e Cuba de Raúl Castro. “Esse trio insólito não parece ter dificuldades particulares para funcionar”, felicitava-se Dabène. “Podemos ver aí a ilustração de certa capacidade, relativamente nova na América Latina, de privilegiar a busca do interesse geral para além das diferenças políticas. É o momento do pragmatismo e da flexibilidade, o que representa um progresso para o regionalismo na zona da América Latina e Caribe.”
Vindo de uma das famílias mais influentes da elite colombiana, o presidente Juan Manuel Santos entendeu direitinho: o rigor ideológico por vezes entrava o comércio. Seus esforços para renovar as relações com a Venezuela estimularam as trocas entre os dois países. Sob o efeito das tomadas de posição agressivas de seu predecessor, Álvaro Uribe, essas trocas tinham diminuído de US$ 2,6 bilhões em 2008 para menos de US$ 800 milhões em 2010.7 Um prejuízo considerável para a burguesia local... Diferentemente de Uribe, engajado em uma ofensiva militar contra a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o tecnocrata Santos seduziu os progressistas europeus ao se pronunciar pela legalização das drogas. Apostando que as reformas sociais enfraqueceriam o apoio popular que beneficia a guerrilha, ele aprovou em 2011 uma lei que visava devolver as terras aos camponeses deslocados e lançou negociações de paz com as Farc. A tática suscitou a cólera dos proprietários de terras – e de seus aliados paramilitares –, opostos a qualquer forma de redistribuição.
Santos também reconheceu que a posição pró-norte-americana de Uribe tinha ampliado o isolamento de Bogotá e se esforçou para construir pontes com a Ásia e com seus vizinhos mais próximos. Ao lado do México, do Peru e do Chile, a Colômbia lançou assim, em 2012, a Aliança do Pacífico. Todos os quatro pretendiam dopar o comércio transpacífico e criar uma zona de livre-troca no coração de uma América Latina julgada protecionista demais.
Quanto às questões socioculturais, elas ainda não apresentam para a direita um modo de se distinguir de forma eficaz. A união civil de casais homossexuais – condenada pela Igreja e pelos setores mais conservadores da sociedade – foi recentemente aprovada nos países governados tanto pela esquerda (Uruguai, Argentina e Brasil) como pela direita (México e Colômbia). No Chile, Bachelet apoiou o projeto de lei de Piñera, ao qual se opunham os aliados da União Democrata Independente (UDI, antes próxima de Pinochet).
Há um consenso amplo também sobre a questão dos direitos das mulheres... mas em torno das posições conservadoras.8 Correa recentemente ameaçou deixar seu partido se seus deputados propusessem a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), que é proibida hoje em dia, salvo por razões terapêuticas ou em caso de estupro de mulheres com deficiência mental. O “sandinista” Daniel Ortega defendeu a proibição total do aborto na Nicarágua. Se excluirmos Cuba, México e Uruguai, a América Latina limita severamente o direito ao IVG, e os “progressistas” não manifestam nenhum sinal de avanço nessa área: durante as eleições presidenciais brasileiras de 2010, os dois principais candidatos, Dilma Rousseff e José Serra, mesmo sendo favoráveis a uma flexibilização da lei, pronunciaram-se contra, por medo de perder o eleitorado católico.
Não seria possível dizer, a respeito de tal quadro, que agora direita e esquerda se assemelham; longe disso. A hegemonia relativa das questões sociais, pela qual a esquerda trabalhou, impõe algum tato às frentes de direita que desejem se aparentar como renovação; mas nada indica que se trate de uma revolução ideológica, e sim apenas de simples acrobacias estratégicas. Além disso, como mostram as numerosas tentativas de golpe de estado que marcaram a história latino-americana recente – tanto as bem-sucedidas, como em honduras (2009) e no paraguai (2012), quanto as fracassadas, como na venezuela (2002), na bolívia (2008) e no equador (2010) –, a “velha direita” autoritária não abandonou o jogo.
 
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“Tive de denunciá-lo”
Brasil, Bolívia, Chile, Argentina... Ao longo dos anos 1960 e 1970, a maioria dos países sul-americanos passou para o jugo de ditaduras militares. No Le Monde Diplomatiquede setembro de 1977, o escritor Eduardo Galeano contou o que sofria seu país, o Uruguai
 
 
No Uruguai, inaugura-se uma prisão por mês. É o que os economistas chamam de um “plano de desenvolvimento”. Transformam-se em prisão as casernas, as delegacias de polícia, os barcos abandonados, os velhos vagões das ferrovias e até mesmo a casa de cada cidadão. Há mais prisioneiros políticos do que prisioneiros de direito comum. O Uruguai possui a maior proporção de prisioneiros políticos do mundo, sem contar os prisioneiros de fora, os que estão do outro lado das grades. Um quarto da população, 1 milhão de pessoas, vive no exílio; quase todos os que ficaram estão banidos mesmo dentro das fronteiras.
No dia 27 de junho de 1973, o país acordou com um golpe de Estado. O Parlamento, os partidos políticos e os sindicatos foram liquidados, assim como todo o resto. Três meses depois, as eleições aconteceram na universidade. Os candidatos da ditadura obtiveram 2,5% dos votos. Em consequência, a ditadura aprisionou praticamente todo mundo e colocou na universidade os candidatos que tinham obtido os 2,5% dos votos.
Esse golpe de Estado vem apenas completar uma situação de fato. Na realidade, o Parlamento já não existia: ele tinha se tornado aquilo que os médicos chamam de “membro fantasma”, aquele que “sentimos” ainda depois da amputação. Já no início de 1973, o Uruguai produzia mais violência do que carne ou lã: aprisionava, torturava, matava e exilava os jovens. As filas para obter um passaporte davam diversas voltas; os barcos levantavam âncora cheios de jovens que fugiam da prisão, da fossa comum ou da fome. Já fazia muito tempo que o país vendia carne humana para o estrangeiro; e o sistema tinha se mostrado impotente para engendrar outra coisa além de prisioneiros ou cadáveres, espiões ou policiais, mendigos ou exilados. O poder se militarizou. No começo para combater os guerrilheiros. Depois, para enfrentar os estudantes, os militantes operários, os políticos de esquerda, os jornalistas da oposição. Depois, para combater qualquer um.
A partir de junho, as coisas se tornaram mais claras. Como em todo o Cone Sul, tomaram o poder aqueles que assassinam as pessoas e os países. Único índice em constante crescimento, as despesas alocadas na repressão – Exército e polícia – atingiram 52% do orçamento nacional. Todo o resto diminuiu desde 1960: o produto interno bruto per capita, a taxa de escolaridade primária, o número de médicos por mil habitantes, o consumo diário de proteínas, os investimentos produtivos etc.
Segundo os dados oficiais, 12% da população ativa do Uruguai está desempregada. E é preciso levar em conta a enorme massa de jovens trabalhadores que deixaram o país e o curioso método da direção de estatísticas, que considera como tendo um emprego qualquer pessoa que trabalhe mais de quatro horas por mês. Ser jovem é um delito; pensar é um pecado; comer é um milagre. [...]
Um uruguaio em cada trinta tem por função vigiar, perseguir e punir os outros. Para manter o emprego, é indispensável possuir o certificado de “fé democrática” entregue pela polícia. Exige-se dos estudantes que denunciem seus colegas, exortam-se as crianças a denunciar seus professores. As citações de José Artigas, herói nacional, sobre a reforma agrária ou sobre a liberdade são proibidas nas escolas (Artigas foi o autor da primeira reforma agrária da América, um século antes de Emiliano Zapata no México). Há algum tempo, uma criança pediu a sua mãe que a levasse de volta para o hospital porque ela queria “desnascer”. O gerente disse para seu funcionário, que era seu amigo: “Tive de denunciá-lo. Eles pediram listas. Era preciso dar um nome. Perdoe-me, se você puder”. [...]
Os prisioneiros não têm o direito de ler a Bíblia nem de estudar matérias subversivas (Filosofia, História, Literatura, Ciências Sociais, Ciência Política). Retiraram das livrarias Vento vermelho, de Raymond Chandler, e O vermelho e o negro, de Stendhal. Ao longo das perseguições, livros sobre o cubismo foram confiscados; motivo: propaganda castrista... [...]
Mais de 5 mil torturados. Nestes últimos anos, 40 mil pessoas passaram pelas prisões e casernas. Os números equivalentes para a França seriam de 100 mil torturados e 800 mil detidos.

Grace Livingstone 

Grace Livingstone é autora de America’s backyard: the United States and Latin America from the Monroe Doctrine to the war on terror [Quintal da América: os Estados Unidos e a América Latina da Doutrina Monroe à guerra ao terror], Zed Books, Londres, 2009.

Ilustração: Daniel Kondo
1  Ler Carla Luciana Silva, “Veja, a tática do cinismo”, Le Monde Diplomatique Brasil, dez. 2012.
2  Ler William I. Robinson, “Les voies du socialisme latino-américain” [As vias do socialismo latino-americano], Le Monde Diplomatique, nov. 2011.
3  Entrevista ao Le Monde, 3 abr. 2014.
4  Ler Anna Bednik, “Pelo ouro do Peru”, Le Monde Diplomatique Brasil, mar. 2014.
5  Ler Janette Habel, “Un pays retrouve le chemin de la rue” [Um país reencontra o caminho da rua], Le Monde diplomatique, jul. 2013.
6  Hernán Büchi, “Chile: la derecha avergonzada” [Chile: a direita complexada], La Tercera, Santiago, 3 out. 2010.
7  Ler Loïc Ramirez, “Quand Alvaro Uribe exaspérait le patronat colombien” [Quando Álvaro Uribe exasperava o patronato colombiano], Le Monde Diplomatique, out. 2012.
8 Ler Lamia Oualalou, “O que mudou para as mulheres”, Le Monde Diplomatique Brasil, dez. 2011.

Surpresa: uma tecnologia contra o capitalismo?


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Multiplicam-se ferramentas que libertam seres humanos das empresas, ao permitir que produzam em colaboração direta. Quais são? Como sistema tenta sabotá-las? 

Por Ricardo Abramovay* | Imagem: Leonardo da Vinci

Resenha de The Zero Marginal Cost Society- The Internet Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism ["A Sociedade de Custo Marginal Zero: a Internet das coisas. os Commons Colaborativos e o Eclipse do Capitalismo" , de Jeremy Rifkin. Palgrave MacMillan. 368 págs., US$ 20,97
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O livro de Jeremy Rifkin [ver referência acima] é uma ambiciosa tentativa de formular nova narrativa para a utopia que desabou junto com o muro de Berlim, em 1989. Sua profecia mais ousada é que o capitalismo entrará em irreversível declínio ao longo das próximas três décadas. Ele não será substituído por aquilo que costuma ser considerado seu oposto, ou seja, a propriedade estatal dos grandes meios de produção e troca, orientada pelo planejamento central.
Seu declínio não passará tampouco por mãos hostis, por processos de expropriação ou por eventos épicos como a tomada do Palácio de Inverno. Na verdade, o eclipse do capitalismo já está desenhado e decorrerá do avanço simultâneo da 00 e da economia colaborativa.

Não se trata de fé ingênua no poder da técnica: a ampliação das oportunidades de oferecer bens e serviços a partir da cooperação direta entre as pessoas (e cada vez menos, do mercado) depende do fortalecimento da sociedade civil e esbarra na gigantesca força dos interesses que procuram sempre limitar o alcance dos bens comuns (os commons, em inglês). Mas, diferentemente de qualquer época precedente, a produção e o uso de bens comuns conta agora com dispositivos cada vez mais poderosos. É nessa unidade entre a cooperação social e as mídias digitais que está a base para uma sociedade moderna, inovadora, colaborativa e descentralizada, funcionamento não se apoia nem nos mercados, nem na busca individual do lucro.

Jeremy Rifkin é professor de uma das mais prestigiosas escolas de gestão dos Estados Unidos, a Wharton. Além disso, é consultor de vários governos europeus e empresas globais. Como tantos outros intelectuais americanos, adotou postura crítica com relação ao papel das finanças na crise de 2008, apoiando o Occupy Wall Street. O mais intrigante neste seu último trabalho está no título: custo marginal zero é uma espécie de quadratura do círculo para a sabedoria econômica convencional. De fato, as primeiras páginas dos manuais ensinam que a natureza econômica dos bens e dos serviços deriva de sua escassez. É por serem escassos que os produtos são alocados por meio dos preços. A abundância generalizada (como bem o observaram, mesmo que sob enfoques diferentes, Marx, Stuart Mill e Keynes) conduziria a uma organização social com mecanismos totalmente diferentes dos que marcam a civilização atual.




A era digital está abrindo caminho a uma economia da abundância. Isso não quer dizer, claro, que produzir matérias-primas minerais e agrícolas não custe nada, que os serviços ecossistêmicos sejam ilimitados ou que se tenha abolido a lei da entropia. Mas é cada vez maior o leque de bens e serviços da economia da abundância.

Aquilo que hoje se encontra gratuitamente no YouTube e na Wikipedia só podia ser oferecido, duas décadas atrás, por uma típica economia da escassez: o consumidor era obrigado a comprar um disco, pagar pela leitura do jornal ou adquirir uma enciclopédia para obter utilidades hoje disponíveis de graça. A própria educação é e será cada vez mais apoiada em mídias digitais, como já mostram os seis milhões de estudantes, de todo o mundo, inscritos em cursos abertos, on-line, das melhores universidades americanas.

A grande novidade do século XXI é que essa revolução virtual já atinge a energia e o mundo material. Passou dos bits aos átomos. E aqui reside o extraordinário potencial transformador da internet das coisas. Ela é um tripé, formado pela unidade entre a internet das comunicações, a internet da energia e a internet da logística.

No campo da energia, a grande novidade não está apenas no caráter exponencial do crescimento das renováveis – sobretudo, da solar, cuja capacidade instalada vem dobrando anualmente nos últimos 20 anos. O mais importante tampouco é o avanço das eólicas, cujas turbinas são hoje mil vezes mais produtivas que em 1990. O fundamental é que esses avanços são acompanhados por uma radical descentralização: na Alemanha, 70% da energia renovável se originam em dispositivos instalados nas residências, nas oficinas ou nas fazendas. Em matéria de energia, os alemães serão não só, cada vez mais, consumidores, mas produtores de renováveis, ou, como diz Rifkin, “prossumidores”. Tanto mais que os próprios bens de consumo (dos eletrodomésticos aos automóveis) serão também dotados do poder de comunicar-se de forma inteligente, consumindo energias nos momentos de menor demanda e, muitas vezes, transmitindo energia para a rede.
O tripé da economia da abundância se completa com dispositivos como a impressora em três dimensões e as máquinas de corte a laser que permitem realizar numa escala local, individual, customizada e com imensa eficiência, aquilo que, até aqui, só era concebível como resultado da grande indústria. Se o sucedâneo da manufatura é a grande indústria, esta será substituída pelo que Rifkin batizou de “microinfofatura”. É um conjunto de técnicas e oportunidades que abrem caminho não só a uma extraordinária economia de recursos, mas a mudanças fundamentais nas bases sociais da oferta de bens e serviços.
Rifkin chega a dizer que a produção de massas dará lugar à produção pelas massas, numa espécie de recuperação dos ideais ghandianos de autoprodução e independência, mas sob condições técnicas que permitem competir com o que, até aqui, só era possível em virtude da grande indústria e da gigantesca concentração de poder que lhe é correlativa. Os prossumidores serão protagonistas decisivos não só na oferta de informação e de energia, mas também de bens materiais. É o que forma a infraestrutura de uma sociedade orientada pela produção e pelo uso de bens comuns.

Rifkin não deixa de mencionar, é claro, o imenso poder hoje em mãos dos gigantes que dominam a própria revolução digital. Mas a cultura do acesso aberto a inovações e a velocidade do avanço da tríade em que se apoia a internet das coisas abrem vias tão novas e promissoras para a cooperação social direta e para a valorização dos bens comuns que tornam persuasiva a ideia de que o capitalismo possa estar a caminho de seu eclipse.

* Publicado no Valor Econômico em 13/5/14.

sábado, 24 de maio de 2014

O silêncio ao redor


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Intelectuais que sempre fizeram o contraponto progressista reagem agora entre a indiferença e a prostração. Jorge Furtado, pergunta: quando o Brasil foi melhor?

por: Saul Leblon


A impressão de que o governo fala sozinho, cercado por um jogral ensurdecedor, ora raivoso, ora repetitivo, mas de qualquer forma  onipresente,  não é  fortuita.
É isso mesmo,  se a percepção se basear  apenas na emissão veiculada pelos jornais, tevês e emissoras de rádio que  ecoam o monólogo  do ‘Brasil aos cacos’.

Mas já foi diferente?  Em 1989, talvez, quando o Jornal Nacional editou o famoso debate final da campanha, às  vésperas do voto? Ou em 2002, quando  George Soros assegurava, com exclusividade para a Folha,  que era  Serra  ou o caos?

Talvez em 2006, sob o cerco do ‘mensalão’? Ou então em 2010, quando a Folha se lambuzou na ficha falsa da Dilma e Serra convocou  Malafaia como procônsul para assuntos relativos a moral e aos bons costumes?

Então o que mudou para que o ar pareça tão mais carregado, a ponto de ser necessário, às vezes, cortar com faca o noticiário para  enxergar  além da derrocada iminente que se anuncia?

Algumas coisas.

Vivemos uma transição de ciclo econômico.

Em parte pela reversão do quadro internacional, em parte pelo esgotamento de suas dinâmicas  internas, o desenvolvimento brasileiro  terá que se repensar para retomar uma trajetória de longo curso.

Trata-se de recompor  as condições de financiamento da economia. E  depurar  prioridades  em direção à maior eficiência logística e melhor qualidade de vida.

Não é café pequeno.

A expectativa provoca arrepios nas  carteiras graúdas.

Não será  mais possível, por exemplo,  prosseguir apenas com o impulso das exportações de commodities, cujos preços triplicaram  no mundo desde 2003  --os do petróleo quadruplicaram, mas  os agrícolas cresceram mais de 50%.

Tampouco a liquidez internacional promete ser tão generosa  a ponto de dissipar as contradições internas  em um jorro de  crédito apaziguador que tudo sanciona.

Os donos do dinheiro precificam as ameaças incrustradas nesse  duplo esgotamento, que escancara a natureza paralisante da hegemonia rentista sobre  o país.

Dispostos a não ceder, operam a plenos decibéis para sufocar a evidência de que seu privilégio entrou na alça de mira de uma encruzilhada histórica.

Aconteceu antes, em 32 e 53 – quase como uma revolução burguesa à revelia das elites; foi resolvido com o patrocínio do capital estrangeiro em 55; reprimido em 64; ordenado ditatorialmente  nos anos 70 e terceirizado aos livres mercados nos anos 90.

A seta do tempo ensaia  um novo estirão.

O desafio, antes  de mais  nada,  é de natureza política.

A coerência macroeconômica da  travessia será  dada por quem reunir  força e consentimento para assumir a hegemonia do processo.

Não por acaso, na abertura do 14º Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais, nesta 6ª feira, Lula  resumiu tudo isso em uma frase:

‘Sem reforma política não faremos nada neste país’. 

E ela terá que ser construída pela rua.  ‘Por uma Constituinte exclusiva’, adicionou o ex-presidente da República:  ‘Porque o Congresso que está aí pode mudar uma vírgula aqui, outra ali. Mas não a fará’.

Não é um capricho ideológico.

Trata-se de dar  consequência institucional às demandas e protagonistas que iniciaram a longa viagem à procura de um outro país, a partir das greves metalúrgicas do ABC paulista, nos anos 70/80.

 E que agregaram mais 60 milhões de brasileiros pobres a esse percurso desde 2003.

Um passaporte da travessia consiste em regenerar a base industrial brasileira.

E tampouco aqui  é contabilidade.

Para a economia gerar empregos e salários de qualidade, ademais de receita fiscal compatível com as urgências sociais e logísticas, é vital recuperar o  principal polo irradiador de produtividade em um sistema econômico.

O pressuposto  para um aggiornamento  industrial é  juro baixo,  câmbio desvalorizado e controle de capitais.

Grosso modo, esse é o  tripé que afronta o outro, da  alta finança, baseado em arrocho fiscal, câmbio livre e juro alto.

Todo o círculo de interesses que orbita em torno do cassino  está  mergulhado até o pescoço na guerra preventiva contra o risco de uma reciclagem subjacente à eleição de outubro.

Essa é uma singularidade  que distingue e radicaliza a presente disputa sucessória  --feita em condições internacionais adversas--  a ponto de tornar o ar quase irrespirável.

Por trás dos ganidos emitidos pelo colunismo isento (ideológicos são os blogueiros)  há um cachorro grande a soprar seu bafo sobre o cangote da sociedade.

O capital rentista.

Ele lucrou,  limpo, acima da inflação, 18,5% em média, ao ano, no segundo governo FHC.

Faturou  11,5%, em média, no segundo governo Lula.

E, já impaciente, entre 3,5% e 5% agora, sob a gestão Dilma.

Estamos falando de massas de forças nada modestas.

Diferentes modalidades de  fundos  financeiros  somaram  um giro acumulado de R$ 2,4 trilhões no Brasil em 2012.

O valor equivale a mais da metade do PIB em direitos sobre a riqueza real  --sem triscar o pé no chão da fábrica.

Não é um país à parte. Mas se avoca   mordomias  equivalentes às desfrutadas pelas tropas de ocupação.

Entre elas, rendimentos sempre superiores  à variação do PIB, portanto, em detrimento de fatias alheias. E taxas de retorno inexcedíveis  -- dividendos  permanentes de dois dígitos, por exemplo--   a impor um padrão de retorno incompatível com a urgência do novo ciclo de investimento que o Brasil reclama.

Não se mantém uma tensão desse calibre sem legiões armadas.

Pelotões de estrategistas, exércitos de consultores, artilharias  acadêmicas, bancadas legislativas, cavalarias midiáticas  e aliados  internacionais  operam  a  seu serviço. 

O conjunto  entrou  em prontidão máxima.

Um pedaço da hegemonia que vai ditar  o novo  arranjo macroeconômico  será decidido nas eleições de outubro.

O embate  escorre do noticiário especializado (isento como uma nota de três reais)  para os espaços onde os cifrões são traduzidos em duelos entre o bem e o mal, entre  corruptos e salvadores da pátria,  intervencionistas e liberais, desgoverno  e eficiência.

Daí  são mastigados para o varejo do martelete conservador.

Nesse ambiente de beligerância em que o governo  parece falar sozinho, a explosão de demandas  que buscam  carona na  visibilidade  da Copa do Mundo, apenas reafirma uma transição de ciclo, incapaz de ser equacionado por impulsos corporativos ou bandeiras avulsas, ainda que justas  (leia mais sobre esse tema no blog do Emir).

‘Não vai ter Copa’  figura como o arremedo de uma unidade tão frágil quanto a aritmética subjacente à ideia de que os males do país se resolvem com os  R$ 8 bilhões financiados às arenas do torneio  --que serão pagos, ressalte-se.

No evento da sexta-feira, em São Paulo, Lula lembrou aos blogueiros que desde que começaram as obras  da Copa, em 2010, o governo investiu  R$ 825 bi em saúde e educação.

E, todavia, a escola pública e o SUS persistem com as lacunas sabidas.

O buraco  é mais amplo.

O Brasil se confronta com o desafio de realizar  grandes reformas  que lhe permitam  erguer as linhas de passagem entre o inadiável  e o viável  num novo ciclo de crescimento.

Menos que isso é  dar  à edição conservadora  suprimentos  para martelar  a ideia de uma sociedade  em decomposição.

Durante muito tempo a percolação desse veneno  teve na comunicação do governo um filtro complacente.

Agora se sabe que essa inércia escavou também um corredor contagioso no ambiente cultural, a ponto de tornar adicionalmente  opressivo  o ar desta sucessão presidencial.

Um pequeno exemplo ilustra  os demais.

Em entrevista recente à televisão portuguesa, o cantor Ney Matogrosso esboçou um cenário de terra arrasada  para descrever o Brasil. https://www.youtube.com/watch?v=DqJ0kF1_oL0. De sobremesa, soltou agudos de visceral rejeição à política, aos políticos e  ao PT.

O problema não é um  cantor  deblaterar contra o governo.

O problema é a ausência de contraponto  ao redor, num momento em que interesses graúdos se empenham em vender a tese de que a melhor saída para o Brasil é andar para trás.

Em diferentes capítulos  da história do país,  o prestígio de seus  intelectuais e artistas  foi decisivo no repto ao cerco asfixiante  com o qual o conservadorismo  tentava, como  agora, legitimar, ou impor,  a receita de arrocho subjacente as suas propostas para os impasses nacionais.

Antes tarde do que nunca, o PT e suas maiores lideranças correm contra o tempo para corrigir o gigantesco erro político que foi subestimar  o papel  de uma mídia  plural na luta pela ampliação da democracia  brasileira .

Passa da hora de acordar também para a necessidade de reativar o diálogo com círculos intelectuais e artísticos, cujo protagonismo  foi  igualmente subestimado por uma concepção   mecânica e economicista de desenvolvimento.

O sequestro  da opinião pública pelo denuncismo conservador   --que radicalizou um clima de indiferença e prostração semeado pelo próprio recuo do PT no ambiente intelectual -- evidencia o  tamanho do equívoco cometido.

Leia, abaixo, a manifestação do cineasta Jorge Furtado (diretor do recém  lançado ‘Mercado de Notícias’ e Urso de Prata em Berlim, em 1990, com ‘Ilha das Flores’)  sobre  esses acontecimentos, que marcam e vão marcar o ar pesado da disputa eleitoral de 2014.

'A mim não enrolam' , diz o diretor gaúcho que questiona em  seu blog a tese de que o Brasil  nunca esteve tão mal: pior em relação a quando e, sobretudo, para quem, argui. http://casacinepoa.com.br/)

O desafio do campo progressista é expandir essa argúcia solitária. 


A íntegra do texto de Jorge Furtado:

"Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira.
 
Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior.
 
Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa "voltar ao 'normal '", como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se "normal" fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?"