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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Rumo a um neo-totalitarismo?

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Um painel de controle da Agência de Segurança Nacional (NSA), nos EUA

Espionagem militar maciça dos EUA apoia-se na cumplicidade das corporações da internet e numa safra de filmes pró-guerra. Felizmente, agora sabemos de tudo  

Por John Pilger, do NewStatesman | Tradução Resistir.InfoCauê Ameni

No seu livro, Propaganda, publicado em 1928, Edward Bernays escreveu: “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo ocultos da sociedade constituem um governo invisível, o qual é o verdadeiro poder dominante no nosso país”.
Bernays, o sobrinho norte-americano de Sigmund Freud, inventou a expressão “relações públicas” como um eufemismo para propaganda de estado. Ele lembrou, porém, que os que dizem a verdade, e um público esclarecido, são uma ameça permanente ao governo invisível.
Em 1971, Daniel Ellsberg trouxe a público os documentos do governo estadunidense conhecidos como The Pentagon Papers. Revelou que a invasão do Vietnã fora baseada numa mentira sistemática. Quatro anos depois, o senador Frank Church dirigiu audiências extraordinárias no Senado dos EUA: um dos últimos lampejos da democracia americana. Estas puseram a nu a plena extensão do governo invisível: a espionagem e subversão internas e a provocação de guerra pelas agências de inteligência e “segurança”, bem como o apoio que recebiam das grandes corporações e das mídias, tanto conservadores como liberais.
Ao referir-se à Agência de Segurança Nacional (NSA), Church afirmou: “Sei que a capacidade que há para instaurar uma tirania na América. Devemos assegurar que esta agência, e todas as que possuem esta tecnologia [de espionagem] operem dentro da lei… de modo que nunca cruzemos esse abismo. Trata-se do abismo do qual não há retorno”.
Em 11 de Junho de 2013, após as revelações feitas por Edward Snowden (um ex-contratado da CIA e NSA), e publicadas por The Guardian, Daniel Ellsberg escreveu que os EUA agora escorregaram para “aquele abismo”.
A revelação de Snowden, de que Washington utilizou a Google, Facebook, Apple e outros gigantes da tecnologia para espionar quase toda a internet, é uma nova evidência da forma moderna de fascismo – esse é o “abismo”. Depois de alimentar regimes autoritários por todo o mundo – desde a América Latina à África e à Indonésia – o gene cresceu em casa. Entender isto é tão importante quanto entender o abuso criminoso da tecnologia.
Fred Branfman, que denunciou a destruição “secreta” do pequeno Laos pela aviação dos EUA, nas décadas de 1960 e 70, proporciona uma resposta para aqueles que ainda se perguntam como um presidente afro-americano, professor de direito constitucional, pode comandar tamanha ilegalidade. “Sob o Obama, os Estados Unidos ainda estão longe de ser um estado policial clássico. . . ”, escreveu ele, “Mas nenhum presidente fez mais para criar a infraestrutura para um possível futuro totalitário”. Por que? Porque Obama, tal como George W. Bush, entende que o seu papel não é satisfazer aqueles que nele votaram mas sim expandir “a mais poderosa instituição da história do mundo, uma instituição que matou e desalojou bem mais de 20 milhões de seres humanos, principalmente civis, desde 1962″.

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No novo ciber-poder americano, só as portas giratórias mudaram. 
O diretor da Google Ideas, Jared Cohen, era conselheiro de Condaleeza Rice, a antiga secretária de Estado no governo Bush, que mentiu quando disse que Saddam Hussein podia atacar os EUA com armas nucleares. Cohen e o presidente executivo da Google, Eric Schmidt – eles encontraram-se nas ruínas do Iraque – escreveram um livro em co-autoria, The New Digital Age, aclamado como visionário pelo antigo diretor da CIA Michael Hayden e pelos criminosos de guerra Henry Kissinger e Tony Blair. Os autores não mencionam o programa de espionagem Prism , revelado por Edward Snowden, que proporciona à NSA acesso a todos os que utilizamos o Google.
Controle e dominação são as duas palavras que dão forma a esse tipo de programa. São exercidas por meio de planos políticos, econômicos e militares, entre os quais a vigilância em massa é uma parte essencial — mas também o é vasta propaganda entre a opinião  pública. Este era o ponto de Edward Bernay. As suas duas campanhas de relações publicas de maior êxito foram convencer os norte-americanos de que deveriam ir à guerra em 1917 e persuadir as mulheres a fumar em público; os cigarros eram “tochas da liberdade” que acelerariam a libertação da mulher.
É cultura popular que funciona mais eficazmente a ideia fraudulenta segundo a qual os Estados Unidos são moralmente superiores e, portanto “líderes do mundo livre”. Mas, mesmo durante os períodos mais patrioteiros de Hollywood houve filmes excepcionais (como os de Stanley Kubrick) e filmes europeus audaciosos que encontravam distribuidores nos EUA. Nestes dias, não há Kubrick, nem Strangelove e o mercado norte-americano está quase fechado a filmes estrangeiros.
Quando apresentei meu filme A Guerra na Democracia a um grande distribuidor liberal dos EUA, recebi uma lista de mudanças exigidas para “assegurar que o filme fosse aceitável”. A inesquecível concessão que ele me fez foi: “OK, talvez pudéssemos deixar Sean Penn como narrador. Isso o satisfaria?” Ultimamente, o filme de apologia da tortura Zero Dark Thirty, de Katherine Bigelow, e We Steal Secrets, um ataque a machadadas contra Julian Assange, foram feitos com o apoio generoso da Universal Studios, cuja companhia-mãe até recentemente era a General Electric. A mesma GE que fabrica armas, componentes para aviões-caça e tecnologia avançada de vigilância. A companhia também tem interesses lucrativos no Iraque “libertado”.
O poder dos contadores de verdades, como Bradley Manning, Julian Assange e Edward Snowden, é que eles refutam toda uma mitologia construída cuidadosamente pelo cinema corporativo, pela academia e pelas mídias de mercado. O WikiLeaks é especialmente perigoso porque proporciona um meio para publicar as verdades que incomodam o poder. Isto foi conseguido em Collateral Murder, o vídeo filmado a partir da cabine de um helicóptero Apache dos EUA, supostamente vazado pelo jovem soldado Bradley Manning. O impacto deste único vídeo marcou Manning e Assange para a vingança do Estado. Ali estavam pilotos dos EUA a assassinar jornalistas e mutilar crianças numa rua de Bagdad,  claramente divertindo-se, e descrevendo sua atrocidade como “nice”. No entanto, num sentido vital, eles não escaparam sem punição; somos agora testemunhas, cabe a nós denunciá-los.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A pressa suspeita do Congresso Nacional

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Os senadores Aécio Neves e José Sarney

Agora, é Legislativo quem procura capturar sentimento das ruas. “Mostra trabalho”, mas restringe debate — e  já vota projetos que podem ser contrários aos direitos e às maiorias

Por Tadeu Breda

Comemorado à primeira hora como um reflexo positivo das manifestações de junho, o ritmo de trabalho frenético que se abateu sobre o Congresso começa a preocupar. Não sinto a menor falta da ociosidade parlamentar de outrora, mas tampouco me alegra ver projetos de lei e propostas de emendas à Constituição sendo aprovados ou derrubados a toque de caixa. É o que está ocorrendo. Dá gosto de ver “os vagabundos trabalhando”, como se diz por aí. Mas essa agilidade não pode suprimir um aspecto fundamental do trabalho legislativo: o debate, não apenas entre deputados e senadores, mas também – e principalmente – destes com a sociedade e da sociedade entre si.

Na última quarta-feira, 3 de julho, a Câmara aprovou o Projeto de Lei Complementar 200, apresentado em 2012, que estabelece o fim da contribuição de 10% do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) pago pelos patrões no caso de demissão por justa causa. Hoje em dia, esse dinheiro vai para um fundo utilizado pelo governo federal para financiar programas sociais, como o Minha Casa, Minha Vida. Lobistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) festejaram a vitória para o bolso dos empresários. Os brasileiros nem souberam do que aconteceu – e talvez ainda não saibam.

A primeira vítima da pressa que se abateu sobre o Congresso foi a PEC 37. Nas últimas semanas, muita gente na rua ergueu cartazes contra a proposta, e xingou muito nas redes sociais, mas poucos sabem efetivamente do que se trata. Sim, ela reduz a capacidade de investigação do Ministério Público, mas quais seriam as reais implicações da PEC 37 para além da ideia de que “serviria para inocentar os mensaleiros”? Fora da área jurídica, e até dentro dela, ninguém sabe. Não estou tratando, aqui, de defendê-la, até porque não tive discussões suficientes para formar uma opinião arrazoada sobre o tema.

Gostaria, apenas, que os brasileiros tivessem tempo de se informar e, informados, conseguissem debater as verdadeiras consequências, não apenas da PEC 37, mas de outras medidas que vêm sendo aprovadas em votações-relâmpago no Congresso. Está acontecendo tudo tão rápido que mesmo quem assistisse TV Câmara e TV Senado 24 horas por dia não conseguiria acompanhar a fundo – e entender – o conteúdo de cada projeto. Quantos estão sendo capazes de formar opinião sobre cada matéria? Inclusive a ideia de garantir recursos do pré-sal para a saúde e educação, aparentemente irretocável, possui meandros técnicos e cálculos matemáticos complicados, que podem significar, anualmente, bilhões de reais a mais ou a menos para equipar escolas e hospitais públicos, e remunerar médicos e professores. Estamos a par destes detalhes para saber o que é melhor para o país, conforme nossa visão de mundo?

No projeto de lei que pretende tipificar a corrupção como crime hediondo, uma das maiores gritas emanada das ruas, o senador José Sarney incluiu uma emenda para que também homicídios simples tenham a mesma caracterização. E passou. Podemos ser contra ou a favor da ideia, mas a população não está tendo tempo de absorvê-la, de discuti-la nem de se pronunciar com um mínimo de autoridade sobre ela. Isso apenas para ficar em alguns exemplos. É estarrecedor pensar que muitos projetos de leis importantes ou detestáveis podem ser aprovados ou rechaçados, com consequências mais ou menos graves no futuro, sem que as pessoas sequer saibam de sua existência.

Há parlamentares oportunistas tentando colocar suas propostas por debaixo do pano, para serem votadas rapidamente em pacotes legislativos pouco ou nada discutidos. 

Perdida na recentíssima torrente política, que gera um turbilhão de notícias todos os dias, a imprensa tem dificuldade em depurar cada proposta – e transmiti-la de maneira inteligível à sociedade. É natural. Os profissionais do jornalismo, por mais informados e rápidos que sejam, também precisam de tempo para pensar sobre as pautas, entrevistar especialistas, confrontar interesses, pesar prós e contras, construir análises etc. É bem-vinda a disposição da classe política em trabalhar, ainda que tenha sido uma disposição nada espontânea: foi claramente fabricada pelo grito dos brasileiros. Estava faltando rua na democracia brasileira – e no ritmo de trabalho do Congresso. Agora que a rua veio, está sobrando velocidade. E faltando discussão. Isso não é bom.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A explosão do ódio

Antropóloga detecta aumento de sites neonazistas brasileiros. E o índice de arquivos baixados com estas características cresce a uma taxa média de 6% ao ano 
 
por Márcio Sampaio de Castro
 
 
Neonazista
Neonazista em manifestação na Alemanha
Durante a última grande manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), para comemorar a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais foram atacados por jovens trajando toucas ninjas, roupas pretas e coturnos. Enquanto agrediam seus alvos, a multidão ao redor aplaudia e gritava “fora partidos, fora partidos”. Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa há mais de 10 anos a atuação dos movimentos neonazistas no Brasil e já foi diversas vezes ameaçada de morte por seus integrantes, não resta a menor dúvida sobre quem eram esses jovens violentos e quais eram suas motivações.
A partir da análise de blogs, sites e fóruns de relacionamento, muitos deles com domínio no exterior, a pesquisadora documentou, ao longo de sete anos, que mais de 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, foram baixados por um número equivalente de computadores com endereços eletrônicos localizados no Brasil no mesmo período. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano e até postagens de crianças já foram detectadas por ela.
Para Adriana, um misto de despolitização da sociedade no período pós-ditadura e a transformação da política em escândalo por boa parte da mídia são o ovo da serpente para a expansão de manifestações crescentes de caráter nazifascista na sociedade brasileira. A omissão sistemática das autoridades às agressões perpetradas contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos, moradores de rua e imigrantes bolivianos nas ruas de grandes centros urbanos completa o ciclo de terror, que silenciosamente avança junto a um número nada desprezível de jovens brasileiros.

Carta Capital: Nas manifestações populares das últimas semanas em São Paulo, um momento que chamou a atenção foi quando jovens, aparentemente ligados a esses movimentos, atacaram militantes partidários e militantes do movimento negro, destruindo suas bandeiras. Enquanto isso ocorria, a multidão à sua volta gritava “fora partido, fora partido”. Como explicar esses dois fenômenos simultâneos?
Adriana Dias: Desde a ditadura militar nós avançamos por um processo de despolitização espantoso em todas as camadas sociais. Os cursos de sociologia e filosofia foram retirados do currículo escolar. Em segundo lugar, há no Brasil uma proliferação da teologia da prosperidade. Na Alemanha, ela foi fundamental para a ascensão do nazismo. A ideia aqui é que não são as ações do governo que auxiliam nessa prosperidade. Por exemplo, o indivíduo consegue comprar uma casa pelo programa Minha Casa, Minha Vida e vai a um culto religioso e acredita que conseguiu por sua própria conta. Esse afastamento gradual do Brasil de um estado laico torna tudo mais difícil. Tanto na Igreja Católica, em sua linha carismática, quanto em certas igrejas protestantes. Por fim, a política de escândalos, patrocinada pela mídia, criou uma personalização da política como um eterno escândalo. Eu chamo isso de um carnaval às avessas. Se no carnaval o povo vai pras ruas para expor sua alegria, nessas manifestações as pessoas têm ido às ruas para expor suas insatisfações, fazendo reivindicações que não são mensuráveis e de um fundo conservador muito forte.
CC: Quais as alternativas para isso?
AD: A alternativa é a volta para o diálogo com os movimentos sociais. Nas elites políticas, em um sentido mais geral, há um movimento totalitário, dentro do que analisa Hannah Arendt. Particularmente na direita brasileira. Em São Paulo, por exemplo, muitas práticas do Estado são totalitárias. Veja a atuação da polícia. Já em um campo mais específico, entram esses movimentos neonazistas e suas ações, como essa verificada nas manifestações.
CC: Como esses jovens neonazistas são cooptados?
AD: Há um proselitismo muito forte no Brasil. Os grandes líderes têm entre 35 e 50 anos e normalmente são pequenos empresários e profissionais liberais. Estes não vão para as ruas. Em um segundo grupo, temos os mais jovens, que vão para as ruas e não se importam por que sabem que, se forem presos, serão soltos. E temos também as mulheres neonazistas, que são vistas somente como reprodutoras, dentro de um ideal paternalista e machista. Os grandes líderes atuam dentro de universidades, por exemplo, distribuindo material de divulgação do movimento e, principalmente, nas redes sociais.
CC: Como surgiu a ideia de pesquisar o movimento neonazista no Brasil?
Adriana Dias: A partir de uma disciplina que cursei na Unicamp, em 2002, na graduação, onde se discutia a negação do holocausto, tive a ideia de fazer um trabalho para conhecer um pouco os grupos neonazistas brasileiros. Como sou programadora, criei uma aranha de busca e percebi que estava entrando em um mundo muito grande. No início, eram apenas 7500 sites, em 2009 já eram mais de 20 mil. Existem também os blogs, que cresceram 450% nesse período, e as redes sociais.
CC: Quais as características desses sites?
AD: São compostos por páginas profundas, com diretórios dentro de diretórios. Nos diretórios mais profundos encontramos incentivos ao genocídio e assassinatos. Muitos deles são de origem norte-americana. Fazem apologia ao número 88, já que o H é a oitava letra do alfabeto e duplicado faz referência ao Heil Hitler. Uma frase muito comum de ser encontrada é o “nós devemos assegurar um futuro para as crianças brancas”, o slogan de 14 palavras inspirado em uma passagem do Mein Kampf, livro escrito por Hitler. Da combinação desses dois números, temos o 14/88, que é uma saudação. Muitos membros nos fóruns de internet se utilizam desses números como nicknames associados a nomes nórdicos. Coisas como Odin88 ou Thor 14/88.
CC: Por que esta forte influência dos sites norte-americanos?
AD: Eu fiz a minha pesquisa em inglês, espanhol e português. Os grandes pensadores do movimento estão nos EUA e um dos principais deles foi o David Lane, que morreu na prisão em 2007. O movimento surge muito forte lá por que a questão racial é muito dura entre eles. Esse lado mais duro permite a expansão desses pensamentos, ao lado do conceito de liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, esses sites são legais. É um discurso público e consequentemente é mais fácil de reproduzi-lo. Só que para mim, a liberdade de expressão se interrompe quando chega à dignidade humana. Representar outro ser humano como animal ou como um demônio está muito além da liberdade de expressão.
CC: A ligação com movimentos estrangeiros tem crescido?
AD: Já houve casos de grupos brasileiros serem rejeitados por serem sul-americanos, mas nos últimos tempos esta visão tem mudado e o ideário da raça branca tem aproximado esses grupos ao redor do mundo.
CC: O jornalista espanhol Antonio Salas, autor de O Diário de Um Skinhead, se infiltrou em grupos neonazistas. A senhora chegou perto de ter alguma experiência deste tipo?
AD: Antonio Salas produziu um trabalho heroico, se fazendo passar por um neonazista para conhecer estes grupos a fundo. Atualmente, ele tem que se manter oculto, pois é ameaçado de morte em 16 países. Eu pesquiso os sites e fóruns. Conheço perto de 500 desses fóruns e muitos funcionam como páginas de relacionamentos, mas os mais representativos chegam a um número de 12. Eles se dividem por temáticas, como o Fórum Verde, sobre ecologia, o Solar General, sobre religiosidade e o Movimento Cristão Identitário, que é protestante radical de direita e que tem a plataforma de criar um estado branco dentro dos EUA.
CC: Em sua pesquisa, o que mais chamou a atenção?
AD: A quantidade de ódio, a idolatria ao ódio. A ideia de achar que ele estrutura a personalidade. Eu, que tenho uma formação humanista, posso dizer que fiquei chocada com isso. Outro aspecto é a crença na noção de sangue que ultrapassaria a substancialidade. Ou seja, o sangue não seria material, estaria na alma. Isto explica por que entre eles a nação, tal qual nós a concebemos, não existe. O que existe é a nação racial. Por isto, é preciso destruir os movimentos populares, que estão associados a outra concepção de nação. Por fim, me chamou a atenção a facilidade para encontrar inimigos. Eu, como antropóloga, não acredito em raças, somente na raça humana, mas para eles, o casamento chamado de inter-racial, por exemplo, é considerado um genocídio.
CC: E no Brasil?
AD: No Brasil, existe o discurso separatista, que traz elementos complicadores.
CC: Como assim?
AD: Cada um quer uma coisa. Veja o caso do (Ricardo) Barollo, que mandou matar o (Bernardo) Dayrell, em 2009, no Paraná. Eles estavam lutando pela liderança do movimento no país, mas o que cada grupo defende a seu modo é a separação de São Paulo ou dos estados do sul do restante do Brasil. Nessas explosões de ódio, que mencionei há pouco, é exigido que eles ataquem os inimigos. Aliás, um dos critérios para aceitar um novo membro é que ele cometa uma violência contra um inimigo. Os grupos neonazistas têm matado e agredido gays em São Paulo, na região da rua Augusta, e ninguém fala nada. A polícia não faz nada. Já conversei com policiais que não consideram crime um indivíduo portar uma suástica bordada na blusa.
CC: Somente os gays?
AD: Não. Atacam bolivianos, negros, gays, nordestinos, judeus e depois relatam nos fóruns. Eles são organizados. Possuem inclusive estratégias de defesa. Muitos, quando são pegos, alegam loucura. São estratégias previamente montadas e as autoridades, por sua vez, não dão importância.
CC: Isto seria em função da cultura brasileira de deixar as coisas acontecerem para depois tomar uma atitude?
AD: Não, não acho. Acontece que no Brasil as minorias não têm importância e é por isso que ninguém faz nada.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Importância da jornada de 11 de julho

 
 
 
 
Saul Leblon, no sítio Carta Maior:

Organizações e lideranças progressistas não podem se omitir nas jornadas da próxima 5ª feira, dia 11.

Para além das justas reivindicações corporativas e setoriais, cabe-lhes repor a moldura da disputa política em curso no país.

Um ciclo de crescimento se esgota; outro terá que ser construído.
Não erguer pontes entre as demandas pontuais e a travessia de um tempo histórico pode ser fatal nesse momento.

O alarido das manifestações de junho não é a causa.

Mas adicionou consequências, e limites, à tentação de se adiar a pactuação das linhas de passagem que devem pavimentar o passo seguinte desenvolvimento.

Por linhas de passagem entenda-se a correlação de forças, as circunstancias objetivas, as metas, recursos e o escalonamento das prioridades.

Vivemos um aquecimento: 2014 será o pontapé oficial.

As jornadas do dia 11 não podem perder de vista a urgência de se organizar o time progressista.

O adversário conta com uma vantagem: o calendário mundial trabalha a seu favor.

A recuperação norte-americana apenas se esboça.

Mas já é precificada pelos gestores do dinheiro grosso, aqui e alhures.

Sinais positivos nos EUA ampliam as rotas de fuga para investidores e rentistas.

Vale dizer, reforçam o poder de chantagem contra Estados, governos, partidos, anseios e plataformas progressistas.

É o que evidencia o jogral da finança global.

O custo do desenvolvimento vai subir, avisam a ‘The Economist’, ‘Financial Times’ e assemelhados locais, enquanto pedem um pagamento antecipado em ‘reformas liberais’.

Editoriais e goelas demotucanas voltaram a pontificar intensamente. Será preciso subir ainda mais o juro aqui, para conter a inflação decorrente da valorização do dólar, e manter o diferencial atraente, quando o Fed elevar a taxa norte-americana.

O ambiente externo favorece a ladainha ortodoxa.

Atingidas pela desaceleração do apetite chinês, as receitas cambiais do país recuam, a exemplo do que ocorre em outros exportadores de matérias-primas.

Vulgarizadores do credo neoliberal celebram: com as multidões nas ruas, é a tempestade perfeita.

Em termos.

Se acertam no varejo, trombam no essencial: o que anda para frente não se confunde com o cortejo empenhado em ir para trás.

O que as ruas reclamam não cabe no credo regressivo.

As ruas reclamam porque o país que emergiu na última década não cabe mais nos limites do atual sistema político.

A resposta é mais democracia.

Mas os 'liberais' são contra o plebiscito da reforma política; rejeitam referendos ('chavismo') e demonizam a simples menção a uma Constituinte.

As ruas reclamam porque ainda não encontram acolhida na infraestrutura secularmente planejada para 30% da população.

A resposta é mais investimento público; melhor planejamento urbano; maior presença do Estado na economia.

E o que eles propõem?

Dobrar a aposta no arrocho fiscal e no Estado mínimo.

As ruas reclamam porque não tem expressão no esquizofrênico ambiente de um sistema de comunicação que exacerba e distorce a natureza dos desafios brasileiros, ao mesmo tempo em que interdita o debate e veta as respostas progressistas a eles.

A opção é a regulação democrática do sistema de comunicação, para que se torne mais ecumênico e plural. Tudo o que eles qualificam como autoritário...

O fato de a revista ‘Veja’ ter recorrido ao rudimentar expediente de forjar um ‘líder biônico dos protestos’, um desses militantes da causa ‘bíceps & figurante da Globo’ (assim elucidado pela investigação demolidora do blogue Tijolaço), diz muito da dificuldade conservadora em acomodar multidões no seu ideário.

Não é uma dificuldade conjuntural.

A entrevista forjada nas ‘páginas amarelas’ guarda sintonia com a ideia de plebiscito preconizada na capa seguinte do mesmo veículo.

Ali desaparece o figurante da democracia para emergir o ideário que o anima: a proposta de plebiscito de 'Veja' inclui uma consulta para cassar o direito de voto "de quem recebe dinheiro do governo".

Quem?

Os 14 milhões de lares beneficiados pelo Bolsa Família e outros programas sociais.

Algo como uns 25 milhões de eleitores mais pobres do país.

O expurgo dos pobres da cabine eleitoral é uma velha aspiração conservadora.

Na Constituinte, abortada, de 1823, que deveria elaborar a 1ª Carta pós- Independência, propunha-se que o voto fosse uma derivação da propriedade da terra.

O recorte mínimo para obter ‘o título de eleitor’ seria uma renda equivalente a 150 alqueires de mandioca.

'Veja' não é um ponto fora da curva.

O pensamento amarelecido expresso em páginas graficamente modernas prossegue a tradição obscurantista de um país que deixou de ser colônia, sem deixar de ser escravocrata.

Em 1888, quando libertou os negros, negou-lhes a cidadania ao descartar uma reforma agrária que os inserisse no mercado e na sociedade (cento e vinte e cinco anos depois, a reforma agrária continua demonizada nas páginas de 'Veja').

Abolição feita, o grau de instrução virou a mandioca da vez: analfabetos foram impedidos de frequentar a cabine eleitoral até quase o final do século 20.

Foi só em 1988, com a Constituinte Cidadã, que o Brasil universalizou o direito ao voto.

A contragosto, diga-se, da turma que agora pretende restituir a Constituição da mandioca, expurgando novamente os pobres da cabine eleitoral.

O Brasil tem razões adicionais para não aceitar que a regressão fale em seu nome.

A desigualdade entre nós ainda grita alto em qualquer competição mundial.

Mas entre 2003 e 2011, o crescimento da renda dos 20% mais pobres superou o dos BRICs, exceto China. (Fonte: Ipea).

O Brasil foi o país que melhor utilizou o crescimento econômico dos últimos cinco anos para elevar o padrão de vida e o bem-estar da população, graças às políticas públicas deliberadamente voltadas aos mais pobres. (Fonte: consultoria Boston Consulting Group, que comparou indicadores de 150 países).

A narrativa conservadora sempre desdenhou da dinâmica estruturante embutida nesse degelo social.

Ou isso, ou aquilo.

Ou se reconhece os novos aceleradores do desenvolvimento ou o alarde dos seus gargalos é descabido.

Ambos são reais.

O malabarismo está na pretensão de afinar multidões na rejeição ao ciclo que as gerou, despertou e agregou.

Esse contrassenso rebaixa e infantiliza o debate das escolhas que devem aprofundar a mutação em curso no país.

Milhões de famílias deixaram a exclusão rumo à cidadania nos últimos anos.

Há um deslocamento épico em marcha, que se pretende barrar com a falsificação de multidões retrógradas.

As jornadas do dia 11 sairão vitoriosas se deixarem claro que as ruas dispensam os heróis de ‘Veja’ de falarem em seu nome.

Partidos, sindicatos e movimentos sociais não podem mimetizar a dissipação da qual se alimenta o canibalismo retrógrado.

No dia 11, o Brasil deve expressar sua diversidade.

Mas, sobretudo, emoldura-la em uma agenda comum.

Para libertar a rua do sequestro conservador. 
 
E o futuro do país também.

Transição de ciclo econômico se acelera. E a restauração em marcha sabota plebiscito.



Transição de ciclo econômico se acelera

Retomada norte-americana amplia o poder de coação dos capitais que migram da bolsa brasileira em 3ª feira marcada, ainda, por queda na produção industrial e dados ruins na balança comercial. 

A transição de ciclo econômico se acelera: o Brasil terá que discutir as linhas de passagem para renovar a sua agenda de desenvolvimento. 

Há escolhas a fazer e não são singelas. 

O país dará liberdade aos fundos e rentistas internacionais para saquearem as suas reservas em revoadas para o exterior? 

Oferecerá arrocho salarial e juro alto na tentativa de conte-los aqui?

Sacrificará investimentos em infraestrutura para entregar o superávit fiscal cheio', como pede a banca local e forânea? 

Saberá pactuar prioridades sociais escalonadas em calendário crível e realista? 

Se as respostas a essas e outras perguntas forem ordenadas pela lógica blindada do interesse financeiro, o resultado é sabido.

O Brasil pode virar um imenso Portugal. 

Portanto, não é apenas a reforma política que requer amplo debate democrático.

A travessia para um novo ciclo de desenvolvimento só contemplará os anseios das ruas por mais democracia social, se vier ancorada em sincera e corajosa discussão progressista com a sociedade. 

É o oposto do que uivam os centuriões do conservadorismo. 

Para eles a rua já deu o que tinha que dar: o desgaste do governo do PT. 

Todo o seu empenho agora é para descongestionar o ambiente político de qualquer contaminação associada a mecanismos de democracia direta. 

A rejeição nervosa ao plebiscito reflete a ansiedade defensiva de quem sabe que o divisor entre economia e política é tênue; nas crises, desmancha-se no ar. 

Deixar o governo sangrar até 2014, sob estrita vigilância dos ‘mercados' é o seu sonho de consumo eleitoral. 

Daí o esforço preventivo de desqualificação de qualquer novidade política que possa empurrar a agenda do futuro econômico para o relento do debate em campo aberto.

Não interessa aos ventríloquos dos livres mercados serem acareados pelo discernimento social. 

Cabe às forças progressistas abortar esse cinturão sanitário, fazendo da travessia econômica uma extensão da agenda da reforma política. A ver.


Restauração em marcha sabota plebiscito: 'as ruas já deram o que tinham que dar'

Dos partidos da oposição, o único que aceitou o convite da Presidenta Dilma para conversar sobre o Brasil e a reforma política foi o PSOL.

Demotucanos e assemelhados declinaram. 

Os campos se definem em relação às ruas.

Caminha-se para um realinhamento da cena política brasileira.

Se a conversa Dilma/PSOL abrir espaços para um aggiornamento à esquerda da governabilidade, algo de inestimável importância terá acontecido nos dias correm. 

Alegam PSDB, Demos e PPS não ter sobre o que conversar.

Faz sentido.

Dilma pretendia ouvi-los sobre a convocação de um plebiscito para estreitar a aderência do sistema político às ruas. 

A proposta foi enviada ao Congresso nesta 3ª feira, cercada pela rejeição conservadora. 

‘Ora direis ouvir as ruas’, replicam demotucanos em sua esférica coerência.

Ouvir as ruas é tudo o que o credo neoliberal entende que não deva ser feito nessa hora; em qualquer hora.

A escuta forte da sociedade soa como dissonância chavista aos ouvidos congestionados pela cera secular do interesse dominante.

A democracia para esse sistema auditivo é um ornamento.

Um adereço nos colóquios dos salões elegantes. Um caramelo, após o cafezinho. 

Nos dias que correm, a democracia é a citação de rodapé da judicialização da política. 

Sobretudo, a democracia destas siglas gêmeas deve lubrificar a obediência da sociedade aos livres mercados.

É o oposto do que pensa a tradição socialista: a democracia cresce justamente quando escapa aos limites liberais e se impõe como força normativa aos mercados.

Ganha relevância assim. 

Quando assume o papel de contrapeso histórico aos apetites rapinosos do dinheiro grosso.

É democracia de fato ao romper a película liberal para se tornar, também, democracia social.

O extremo oposto conservador entende que ouvir as ruas é algo que só cabe em doses módicas.

Com o dinheiro a cerzir as amarras entre o presente e o futuro.

De quatro em quatro anos.

Nunca em ciclos curtos, ou de crise, quando o mais aconselhável são as elites – no limite, os quartéis - assumirem a tutela da vontade popular.

Consultas regulares à cidadania e tudo o mais que possa tornar volátil o mando e o comando devem ser execrados.

Volatilidade é uma prerrogativa dos capitais. 

Irrepartível.

À política cabe a tarefa de calcificar o poder e embalsamar a sociedade.

Editoriais de O Globo, Estadão e Veja, ademais de centuriões da mesma extração, uivam a rejeição ao plebiscito e à Constituinte. 

O que lhes interessava das ruas, as ruas já deram.

O Datafolha, no calor da Paulista, recompôs a chance de um 2º turno em 2014. 

A narrativa tratou de ofuscar o ruído de longo curso, subjacente ao desabafo da hora: se candidato, Lula levaria de 1ª, com 46% dos votos.

A Folha entendeu; e tanto que escondeu o tropeço na primeira página. E pisoteou a informação nas entrelinhas internas.

É preciso desfrutar a ‘colheita’, crua, se necessário, para não desperdiçar a janela de oportunidade.

Interesses que operam no sentido de subtrair fatias de poder à democracia estão satisfeitos com o saldo.

Há mais de 30 anos tem sido hábeis em interditar o debate das grandes escolhas do desenvolvimento.

Para isso, escavaram fossos intransponíveis entre a soberania nacional e a supremacia das finanças desreguladas no circuito global. 

Assim se assegurou a hegemonia do poder extra-ruas.

Por que abririam mão dele justamente agora, em pleno divisor de ciclo, quando linhas de passagem terão que ser erguidas em direção a um novo projeto de desenvolvimento?

O ‘não’ ao convite de Dilma encerra a solidez de uma coerência histórica.

A contrapartida cabe à esquerda.

A sorte do país e o destino de sua democracia dependem, em grande parte, do desdobramento concreto que o diálogo simbólico entre Dilma e o PSOL produzir na unificação da agenda progressista brasileira.Não apenas para articular a reforma política. Mas para democratizar o crucial debate sobre o passo seguinte da luta pelo desenvolvimento. 

A ver. 

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domingo, 7 de julho de 2013

Prezar a liberdade, defender a escravidão

Os partidários do liberalismo atribuem ao neoliberalismo o mérito de transformações emancipatórias às quais na verdade ele se opõe
por Lucien Sève

Quem faz do liberalismo a imagem dada pelos liberais terá duras surpresas ao ler esta obra magistral de Domenico Losurdo, Contre-histoire du libéralisme[Contra-história do liberalismo] (Laterza, Roma/Bari, 2006), que já de saída nos apresenta um extraordinário paradoxo.
Ser liberal, em princípio, significa militar, seguindo a escola de grandes escritores como Hugo Grotius e John Locke, Adam Smith e Alexis de Tocqueville, pelas liberdades do indivíduo contra o absolutismo político, o intervencionismo econômico, a intolerância filosófica. Poderoso movimento de pensamento e ação que, do século XVI ao século XVIII, e através de três gloriosas revoluções na Holanda, Inglaterra e América, moldou toda a história contemporânea. Mas é justamente com ele que a escravidão conheceu seu maior desenvolvimento. Na América, havia 330 mil escravos em 1700, cerca de 3 milhões em 1800 e o dobro na metade do século XIX. A Holanda só aboliu a escravidão em suas colônias em 1863. Em meados do século XVIII, era a Grã-Bretanha que tinha o maior número de escravos: quase 900 mil. E tratava-se do pior tipo de escravidão, a chattel racial slavery, na qual o escravo negro é simplesmente um “bem móvel”. Não se poderia imaginar uma negação mais radical da liberdade individual. Onde está o erro?
É isso que o livro se dedica a explicar, de cabo a rabo, com uma impressionante oferta de fatos sangrentos e citações sufocantes. Não, não se trata de um erro. A doutrina liberal nasceu com duas faces e nunca as abandonou: mensagem inflamada de liberdade pessoal apenas para os cidadãos, homens brancos proprietários que formavam um Herrenvolk, um “povo de senhores” – germanismo adotado sem medo por essa ideologia amplamente anglófona; negação cínica da humanidade não apenas para os negros nas colônias, mas também para aquelas consideradas “bárbaras”, como os irlandeses e os índios americanos, e toda a massa de servos e trabalhadores nas próprias metrópoles – ou seja, para a grande maioria. Essa contra-história do liberalismo, sem negar a face luminosa, revela desde o princípio, em toda a sua extensão, o lado escuro que a hagiografia liberal não cansa de esconder. Quando, por exemplo, apenas para ficar em um detalhe, aprendemos que o grande filósofo liberal Locke era acionista da Royal African Company, grande organizadora do tráfico de negros, começamos a entender melhor muitas coisas em nossa história moderna.
Mas também entendemos que esse livro iconoclasta levou tempo para chegar até nós. E que aquilo que nossa grande mídia fala dele, mesquinhamente, revela com frequência um mau humor envergonhado. A obra é erudita demais e ao mesmo tempo muito clara para ser recusada com propriedade. Por isso é atacada por meio dos desgastados expedientes da polêmica. Questionam-se as posições do autor sobre qualquer outro assunto, quando é perfeitamente admissível não concordar com ele. Acusam-no de unilateralismo, quando ele não perde nenhuma oportunidade de mostrar a diversidade de aspectos do liberalismo, a complexidade de suas correntes, muitas vezes a ambiguidade de seus pensadores. Por fim, lança-se o golpe do “mas todo mundo já sabia!”, quando a ideologia dominante age incessantemente para dar vida, em sua grosseira parcialidade, à lenda dourada do liberalismo.
Novo Mundo, um “berço vazio”
É preciso dizer que o livro de Losurdo está cheio de citações que fazem muito mal à lenda. Como este texto de Tocqueville legitimando o extermínio dos peles-vermelhas: “A Providência, colocando-os em meio às riquezas do Novo Mundo, parecia não lhes ter oferecido mais que um curto usufruto. Eles estavam lá, de alguma forma, apenasesperando. As costas tão bem preparadas para o comércio e a indústria, os rios tão profundos, o inesgotável vale do Mississípi, o continente inteiro, tudo isso aparecia então como o berço ainda vazio de uma grande nação”. O “berço vazio”: eis como um célebre liberal legitima com sua pena leve um dos maiores genocídios da história, fornecendo por antecipação uma justificativa muito apreciada aos doutrinários da “terra sem povo” oferecida por Deus a um povo sem terra... Textos dessa seara existem em grande número, e outros ainda mais inesperados, nessa contra-história.
Oferecendo-nos muito a aprender, o autor ainda mais nos dá a pensar. Por exemplo, e de maneira central, exibindo a proposição de um George Washington ou de um John Adams verdadeiramente reveladora a respeito da Revolução Norte-Americana realizada no fim do século XVIII por colonos liberais proprietários de escravos, absolutamente conscientes de serem “súditos britânicos brancos e nascidos livres”, no último grito contra os ingleses da metrópole que os oprimia: “Não queremos ser seus negros!”. O que logo salta aos olhos aqui é que o pensamento liberal nunca foi autenticamente universalista. As liberdades exigidas “para o indivíduo” não são, em absoluto, para todos os seres humanos, mas apenas para o pequeno número de eleitos, no duplo sentido bíblico e cívico do termo.
“Há homens nascidos para a servidão”
E esse particularismo agressivo é fundador. Hugo Grotius, um dos pais da doutrina liberal no século XVII, legitima sem reservas a instituição da escravidão (“há homens nascidos para a servidão”, escreveu, reivindicando Aristóteles), chama os cidadãos das colônias holandesas de “bestas selvagens” e, qualificando sua religião de “rebelião contra Deus”, justifica a mais cruel “punição dos culpados”. Não há, portanto, desvios da prática: é a própria ideia liberal que traz em si um aristocratismo antropológico diretamente segregador e desumanizador.
O francês Alexis de Tocqueville, aristocrata-democrata, tem muitos pensamentos bastante parecidos. Losurdo cita a seguinte afirmação: “A raça europeia recebeu do céu ou adquiriu por seus esforços uma tão incontestável superioridade sobre todas as outras raças que compõem a grande família humana, que aquele entre nós que esteja no último nível da escala social, por seus vícios e sua ignorância, será ainda o primeiro entre os selvagens”. Muitos hoje se surpreendem com a arrogância de casta ostentada por vários membros, homens ou mulheres, dos meios dirigentes; lendo essa contra-história, entendemos que, mais que um traço psicossocial dos indivíduos, essa é uma característica fundamental da própria doutrina liberal e da postura prática que ela sempre comandou. Liberalismo e democracia nunca foram sinônimos.
A conclusão de Losurdo é que “se trata de um discurso inteiramente centrado naquilo que, para a comunidade dos homens livres, é o espaço sagrado restrito” – espaço sagrado tal como o legitima uma cultura ético-religiosa protestante fundamentalmente nutrida pelo Antigo Testamento. E basta fazer intervir na análise o “espaço profano” (os escravos das colônias e os servos da metrópole) para perceber o caráter inadequado e enganoso das categorias habitualmente utilizadas para traçar a história do Ocidente liberal: primado absoluto da liberdade individual, antiestatismo, individualismo. A Inglaterra dos séculos XVIII e XIX é o país da liberdade religiosa? Sobre a Irlanda, o liberal Gustave de Beaumont, companheiro de Tocqueville durante sua viagem à América, fala de uma “opressão religiosa que supera qualquer imaginação”.
Acompanhar o liberalismo em sua longa história implica também interessar-se, pelo menos de maneira secundária, por aquilo que veio a contestá-lo, ou até combatê-lo. Através do livro de Losurdo, vemos formarem-se as diversas figuras de um universalismo, segundo ele, católico e monárquico, de um Jean Bodin, no século XVI, ao radicalismo anticolonial e abolicionista algumas vezes alcançado pelos liberais avançados do século XIX, e até a crítica fundamental de Karl Marx, que se destaca em revelar o “caráter conservador da revolução inglesa”. A emancipação política burguesa foi na verdade o sinal de um furor social não apenas contra os povos coloniais, mas também contra o próprio campesinato inglês, antes de atacar o proletariado urbano incrivelmente maltratado dasworkhouses − uma análise que Losurdo, no entanto, não segue integralmente, esboçando uma visão de conjunto pessoal das revoluções liberais latino-americanas e europeias.
Porém, por mais significativas que sejam essas posições antiliberais, mais concretamente produtivos foram os movimentos dos próprios povos, entre os quais Losurdo coloca em primeiro lugar a revolta de Santo Domingo, com a figura de proa de Toussaint Louverture, verdadeiro tiro de canhão no concerto dominante da época – um povo negro tem a inacreditável audácia de querer ser livre! –, uma revolta que, ao mesmo tempo que a Revolução Francesa, provocou uma virada decisiva na independência crioula e na abolição da escravatura na América Latina. Cento e vinte e cinco anos depois, um poderoso impulso no mesmo sentido foi dado pela Revolução de Outubro na Rússia. “Tudo bem considerado, foram a revolta de Santo Domingo e a Revolução de Outubro que colocaram em crise, respectivamente, a escravidão e o regime terrorista de dominação branca”: dois capítulos históricos “majoritariamente odiados pela cultura liberal da época”.
Sem abordar a história recente do neoliberalismo, Losurdo termina questionando-se sobre a responsabilidade do liberalismo nas “catástrofes do século XX” e, de modo totalmente convincente, considera-a pesada. Evocando a tese de Hannah Arendt, que parte “das colônias do Império Britânico para explicar a gênese do totalitarismo do século XX”, ele lembra que os campos de concentração e outras instituições antidemocráticas “começaram a ser esboçadas bem antes do fim da chamada Belle Époque”, citando, por exemplo, as “deportações sangrentas e repetidas dos índios, a partir daquela colocada em prática pelos Estados Unidos de Jackson (designado por Tocqueville como um modelo de democracia)”.
Com o tratamento infligido aos negros do Novo Mundo, alcançaram-se em matéria de desumanização “picos difíceis de igualar”. Na Jamaica britânica, “um escravo foi obrigado a defecar na boca do escravo culpado, que foi então costurada durante quatro ou cinco horas”. Nos Estados Unidos, crianças em idade escolar podiam ganhar um dia de folga para assistir a um linchamento. O título de um livro publicado em Boston em 1913 evoca a “solução final” (ultimate solution) da questão negra. Um pesquisador norte-americano, Ashley Montagu, escreveu sobre o racismo e o nazismo que “o monstro que conseguiu saltar livremente para o mundo é em grande parte nossa criação [...], e somos responsáveis pela forma horrenda que ele tomou”.
Está errado o autor, portanto, em pedir o fim da falsa hagiografia do liberalismo, administrada em altas doses por três décadas desde o início do reinado de Margaret Thatcher?

Lucien Sève é filósofo, autor de Penser avec Marx aujourd’hui. Tome 2: L’Homme, La Dispute, Paris, 2008.

Ilustração: Lollo