Alguns analistas julgam que se superestima o papel do câmbio na economia de um país.
Algum
tempo atrás, um deles escreveu um livro sobre o milagre britânico do
século 18, que acabou transformando o país em uma potência imperial.
Destacou aspectos ligados à legislação, à inventividade do inglês, aos
investimentos em ensino, que permitiram ao país comandar a primeira
revolução industrial.
Todos esses aspectos são importantes para o desenvolvimento do país.
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Cada vez mais o Brasil se firma como mero fornecedor de matéria prima |
Depois, uma estratégia comercial que consistia em comprar matéria prima dos países emergentes e vender produtos acabados.
É uma forma de apoio à greve geral contra a alta dos preços dos combustíveis. A Nigéria é o maior produtor de petróleo da África
Em
seu histórico “A era das revoluções”, o historiador inglês Eric
Hobsbawn anota que “qualquer que tenha sido a razão do avanço britânico,
ele não se deveu à superioridade científica e tecnológica”.
A
França era superior na matemática e na física, enquanto na Inglaterra
eram vistas como ciências suspeitas. Os franceses desenvolveram inventos
mais originais, como o tear de Jacquard, em 1804, e tinham melhores
navios. As escolas inglesas eram uma piada e as duas únicas
universidades inglesas intelectualmente nulas, compensadas apenas pelas
escolas do interior e pelas universidades da Escócia calvinista. Por
temor social, não era encorajada a educação dos mais pobres e a
alfabetização em massa só ocorreria em princípio do século 19, com a
revolução industrial já em curso – pressionando por mão de obra mais
especializada.
As invenções
técnicas, que comandaram a revolução industrial, eram bastante modestas:
a lançadeira, o tear e a fiadeira automática, ao alcance dos
carpinteiros, moleiros e serralheiros.
A
grande invenção inglesa do século 18, a máquina a vapor rotativa de
James Watt (de 1784) só ganhou estabilidade e utilização ampla a partir
de 1820. Com exceção da indústria química, as demais inovações
industriais – na expressão de Hobsbawn – “se fizeram por si” – isto é,
foram desenvolvidas no dia a dia, sem grandes investimentos
tecnológicos.
Um dos grandes
avanços britânicos foi no campo, eliminando o antigo sistema de
propriedades herdades por empresários com espírito comercial, que
passaram a articular cadeias produtivas – arrendando terras para
camponeses sem terra ou pequenos agricultores e direcionando as
atividades agrícolas para o mercado. E as manufaturas tinham se
espalhado pelo interior não dominado pelo feudalismo.
Com
isso, a agricultura cumpriu suas três funções em uma era de
industrialização acelerada: aumentar a produção e a produtividade para
alimentar uma população cada vez menos agrícola; fornecer mão de obra
para as novas atividades industriais, através do êxodo rural; e garantir
capital que foi aplicado em setores mais modernos da economia.
Paralelamente, o país investia na construção de uma frotra mercante e de estradas e infraestrutura adequada.
Até
então a atividade empresarial mais lucrativa era do comerciante,
comprando mais barato e vendendo mais caro. A revolução industrial muda
esse paradigma e passa a deixar a melhor parte do bolo para o
industrial.
Mercado mundial
Política
cambial, acordos comerciais, domínio dos mares, abriram um mercado sem
precedentes para seus industriais. Através de inovações simples e
baratas, os industriais conseguiam taxas de retorno extraordinárias. No
início, lã para abastecer o mundo. Quando o algodão substituiu a lã,
compra de algodão dos países emergentes – basicamente Estados Unidos e
América do Sul – e venda de tecidos para eles.
América Latina como comprador
Entre
1750 e 1760, as exportações inglesas de tecidos de algodão aumentaram
dez vezes, sempre com apoio agressivo do governo nacional. E aí, toca
enfiar produtos na América Latina – como a China está fazendo hoje em
dia. Por volta de 1840, o continente consumia quase metade do consumo
europeu de tecidos de algodão ingleses. Indústrias eram criadas e, da
noite para o dia, tornavam-se gigantes.
Puxando o resto
Com
o mercado internacional à disposição, a indústria do algodão
lubrificoiu todos os demais setores relevantes da Inglaterra, máquinas,
inovações químicas, setor elétrico, frota mercante etc. Ou seja,
primeiro criou-se o mercado, depois o mercado abriu um mundo inédito de
possibilidades para os empreendedores que, com pouco capital e pouca
inovação, tinham condições de saltos expressivos. Não é muito diferente
do que ocorre na China.
Salto chinês
Tempos
atrás viajei com um importador brasileiro de lâmpadas led. Ele
importava de um pequeno fabricante chinês, que adquiria os insumos da
Alemanha, processava e vendia mais barato. Depois, o industrial resolveu
comprar máquinas para fabricar ele próprio os insumos. Em dois anos,
tinha 35 mil m2 de instalações. Guardadas as proporções de época, apenas
repetia o fenômeno da Inglaterra do século 18.
Brasil na contramão
No
caso do Brasil, o desabrochar do mercado interno criou as primeiras
condições para o salto da indústria. Mas o câmbio está matando o
deslanche. Cada vez mais, o crescimento do mercado interno está sendo
apropriado pela manufatura chinesa; e cada vez mais o Brasil se firma
como mero fornecedor de matéria prima. Chega uma hora que nem o mercado
interno garantirá mais o crescimento da economia.
Falta de visão
Essa
falta de visão sobre o salto futuro é disseminada no país. No governo
federal, lançam-se planos ditos de desenvolvimento sem concatenação com a
política macroeconômica. No Estadão de ontem, José Serra criticou o
governo federal. Mas, em plena crise de 2008, aumentou os impostos
paulistas, recusou-se a receber industriais e não desenvolveu um
programa sequer de inovação para o Estado.
Luis Nassif
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