Por Daniel Bin.*
Em meados dos anos 1950, o sociólogo Immanuel Wallerstein escreveu uma dissertação de mestrado1
em que analisava o papel do macartismo nos conflitos entre dois grandes
grupos em que dividia-se a direita política estadunidense. Seu
argumento central era que a caça às bruxas promovida pelo senador
republicano Joseph McCarthy não visava aos membros do Partido Democrata
tampouco aos “comunistas” eventualmente presentes na administração do
presidente Harry Truman. Segundo Wallerstein, McCarthy tinha como alvo
os “conservadores sofisticados,” os quais o senador por Wisconsin queria
ver fora das posições de poder no governo dos Estados Unidos.
Aquele
trabalho de Wallerstein partiu da ideia central de que havia dois tipos
de conservadores: a direita prática e os conservadores sofisticados.
Tais categorias eram inspiradas em C. Wright Mills, que as distinguia de
acordo as posições de cada grupo conservador em relação às lideranças
de trabalhadores. Os sofisticados acreditavam ser capazes controlar a
situação social pela via da manutenção de tais lideranças como aliadas
inferiores e na linha de frente dos interesses dos primeiros.
Distintamente, os integrantes da direita prática temiam a usurpação de
suas prerrogativas de poder em situações desse tipo.2
Os práticos tinham uma visão mais estreita das questões econômicas e os
sofisticados, uma visão dos interesses das classes proprietárias como
um todo.3
Cerca de
sessenta anos mais tarde, Wallerstein viria a afirmar que aquela mesma
batalha descrita em seu estudo “é a batalha atualmente em curso no
Partido Republicano nos Estados Unidos, entre o pessoal do Tea Party e os dirigentes conservadores mais clássicos.”4
Foi o que se observou com mais clareza nas últimas eleições
legislativas, em 2014. Naquele momento, mais precisamente nas eleições
primárias, os conservadores sofisticados do Partido Republicano
conseguiram impedir algumas vitórias de pré-candidatos vinculados ao Tea Party, o que, em seguida, permitiu ao partido conquistar o controle do Senado.5
Immanuel Wallerstein, autor de O universalismo europeu: e retórica do poder. A nova edição da Revista Margem Esquerda, n.24 abre com uma longa entrevista com o pensador, conduzida por Daniel Bin.
Mas se no
Hemisfério Norte vemos certa contenção de forças mais reacionárias, ou
mesmo algum crescimento de movimentos mais à esquerda, como na Grécia e
na Espanha, no Brasil a tendência parece querer tomar sentido oposto.
Desde depois das primeiras manifestações de rua de junho de 2013, temos
visto a revelação de fenômenos que, se por um lado não podem ser
classificados como novidade, por outro, não encontravam até então espaço
suficiente para deixar o estado latente. Em 2013 esse espaço começou a
se alargar. Após as manifestações de caráter popular, cujo marco é a
luta pela redução do preço do transporte público, vieram também
manifestações reacionárias e, em certos casos, com coloração fascista.
Coloração essa que voltou a aparecer no início de 2015, quando, em meio a manifestações pelo impeachment
da presidenta da República, alguns chegaram a pedir coisas como a volta
de uma ditadura militar. De um modo geral, o tom usado pela imprensa
conservadora na cobertura dos protestos de 2015 foi de exaltação do seu
caráter democrático, o que, contudo, deve ser tomado de forma relativa:
balas de borracha disparadas por polícias militares contra manifestantes
em 2013 e selfies tiradas por manifestantes junto a policiais
militares em 2015 são amostras de como conservadores são capazes de
relativizar o conceito de democracia.
As manifestações de 2015 foram em parte embaladas por forças políticas que, ao recorrer a uma retórica estilo Tea Party —
há quem diga que Obama é “comunista” — se aproximam de uma versão
doméstica daquilo que Wright Mills chamou de direita prática. Essa
comparação, claro, deve ser feita com as devidas mediações, mas na
retórica, a direita prática daqui padece de suporte lógico tanto quanto a
direita prática de lá. Mas para quem opta pela retórica em detrimento
da lógica, pouco importa serem de uma mesma classe os que financiam as
campanhas de republicanos e democratas ou de tucanos, peemedebistas e
petistas. Não obstante, isso importa a quem pauta a ação por uma
racionalidade de tipo instrumental, ou seja, aquela com vistas aos fins e
nunca com vistas à tradição.6 Mesmo que nos altos círculos das grandes empresas e de suas associações também ocorram tensões entre práticos e sofisticados,7 é no segundo grupo que estão os principais financiadores de campanhas eleitorais.
Tem-se a
impressão que enquanto o avanço da direita prática era percebido como
restrito a manifestações de rua ou em redes sociais, os conservadores
sofisticados não viram nisso tantos problemas. Aliás, isso não deixou de
lhes ser útil na medida que tais manifestações serviram para colocar o
atual governo brasileiro na defensiva. No entanto, quando esse mesmo
contexto ajuda a criar condições objetivas para que o reacionarismo até
então latente encontre terreno fértil em instituições como o parlamento,
os riscos representados pela direita prática começam a ser percebidos
pelos conservadores sofisticados. Tomo como evidência dessa hipótese o
conteúdo do editorial da Folha de S. Paulo do penúltimo domingo, dia 14, onde se lê que
“nos
tempos de Eduardo Cunha, mais do que nunca a bancada evangélica se
associa à bancada da bala para impor um modelo de sociedade mais
repressivo, mais intolerante, mais preconceituoso […] Os inquisidores da
irmandade evangélica, os demagogos da bala e da tortura avançam sobre a
ordem democrática e sobre a cultura liberal do Estado.”
O referido editorial
sugere que o atual presidente da Câmara dos Deputados seria a
personificação de um conservadorismo que o jornal, contudo, trata de
forma genérica ao colocar-se como defensor da “cultura liberal do
Estado” agora sob ataque. No entanto, Cunha — e isso vale também para a
parcela da Câmara que ele por enquanto controla — representa aquela
figura que Wright Mills distinguiu do conservador sofisticado para
classificar como direita prática. A sofisticação conservadora aqui
aparece, por exemplo, no referido editorial, cuja defesa da “cultura
liberal do Estado,” aliás, reforça essa ideia. Seguindo Wright Mills,
uma das condições que faz sofisticados os conservadores sofisticados é a
capacidade de tomar e usar retórica liberal dominante em favor de seus
propósitos.8
Enfim,
parece que forças conservadoras do tipo sofisticado começam a se mover
diante das potenciais ameaças do avanço da direita prática. Um desses
movimentos foi o recuo tucano de levar adiante a tese do impeachment
da presidenta da República. Não por reconhecer a legitimidade desta,
mas a tese que teimava em não encontrar-se com um fato determinado deu
àquela insistência a cor de golpe, e isso é atitude antes de práticos do
que de sofisticados. Outro movimento significativo deu-se na semana
retrasada, quando o governador de São Paulo esteve em Brasília
negociando alternativa ao formato de redução da maioridade penal atualmente em discussão no Câmara dos Deputados. Logo em seguida, no dia 15, em novo editorial a Folha de S. Paulo
fez coro à proposta do governador ao opinar que, em vez da redução, “a
solução mais sensata é a de reformar o [Estatuto da Criança e do
Adolescente].”
São esses os movimentos, especialmente o editorial
que trata “[d]os tempos de Eduardo Cunha,” que agora surgem como sinais
do convencimento, por parte dos conservadores sofisticados, de que se
quiserem voltar ao poder em 2018, uma de suas tarefas será a contenção
do ímpeto obscurantista da direita prática. Mas aqui o termo contenção
não deve ser lido como sinônimo de enfrentamento. Poucos têm sido tão
úteis aos conservadores sofisticados contra os seus potencias maiores
adversários — os quais são inseparáveis do atual governo — em 2018 do
que a parcela da direita prática agora reunida em torno de Eduardo
Cunha. Outro problema, para os conservadores sofisticados, será resolver
a divisão que já se anuncia dentro da sua maior força partidária, mas este é um problema antigo.
NOTAS
1. Immanuel Wallerstein. 1954. McCarthyism and the conservative. Masters essay. New York: Columbia University.
2. C. Wright Mills. 1948. The new men of power, America’s labor leaders. New York: Harcourt, Brace.
3. C. Wright Mills. 1956 [2000]. The power elite. New York: Oxford University Press.
4. Gregory P. Williams. 2013. “Retrospective on the origins of world-systems analysis“. Journal of World-Systems Research, v. 19, n. 2.
5. Daniel Bin. 2015. Entrevista: Immanuel Wallerstein. Margem Esquerda: Ensaios Marxistas, n. 24.
6. Max Weber. 1922 [1964]. Economía y sociedad: esbozo de sociología comprensiva. México: FCE.
7. C. Wright Mills. 1956 [2000]. The power elite. New York: Oxford University Press.
8. Idem.
Daniel Bin é professor de políticas públicas na Universidade de Brasília. Doutor
em sociologia pela mesma universidade, com estágio de doutorado na
Universidade de Wisconsin-Madison, realizou estágio pós-doutoral na
Universidade Yale. Dele, leia também A financeirização da democracia brasileira, A (in)visibilidade da luta de classes nas Jornadas de Junho, “Uma pessoa, um voto”, ou “um real, um voto”?
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